Sonhos de pessoas fora das trincheiras

Alunos da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa se apresentarão no domingo (17)

Enquanto muitos brasileiros se enfiam em trincheiras em defesa de posições aparentemente irreconciliáveis, o que fazem os brasileiros ou brasileiras comuns?

Foi sempre esta a pergunta que fiz ao pesquisar as muitas realidades em que me aprofundei como as religiões afro-brasileiras, os pré-vestibulares para negros e carentes, os sistemas de classificação de cor e o universo das escolas de ensino médio no Brasil. Sair dos livros e conhecer lugares ermos e de difícil acesso para simplesmente conversar e saber o que pensam e fazem as pessoas em seu dia-a-dia era o meu maior objetivo. Não pesquisei organizações políticas e nem os chamados bem pensantes. Gosto de conversar e ao longo dos muitos anos de pesquisa fiz pouquíssimas entrevistas. Apenas enchi páginas com os muitos assuntos que me davam tanto prazer e me faziam conhecer mundos tão diferentes do meu.

Claro, as conversas não dizem tudo. Há embaraços. O mais difícil de todos era a minha posição social a qual circunscreve o que as pessoas querem ou podem me contar. Faz parte do ofício do antropólogo saber relativizar e também ter consciência dos limites do conhecimento. Com tudo isso, ou apesar de tudo, acho que aprendi muito com brasileiros e brasileiras comuns.

Hoje, pensando sobre o que fazem as pessoas fora das trincheiras resolvi contar uma história simples, mas muito ilustrativa do esforço e da beleza de uma vida voltada para o dia-a-dia na esperança de um futuro melhor. Fabiana tem duas filhas, uma de oito e outra nove anos e mora na comunidade da Chatuba, município de Mesquita na Baixada Fluminense. O bairro é típico da área: ruas asfaltadas com casas, algumas construídas há muitos anos, e pequenos prédios. Muitos meninos jovens vivendo do tráfico, sempre vigiados pela polícia. Nem sempre a vida é fácil nessas paragens. Fabiana trabalha como cuidadora de idosos aos sábados e domingos e não tem renda fixa. Durante a semana luta para educar Rayne e Raiyssa que estudam em uma escola particular, cujas mensalidades são baixas, e no contra-turno frequentam o projeto Arte com Visão no Instituto Mundo Novo, lá mesmo na Chatuba. Foi neste projeto que Rayane e Rayssa descobriram a dança clássica.

O dia de Fabiana começa cedo preparando e levando as meninas para a escola, faça sol ou chuva. Enquanto as meninas estudam, Fabiana prepara a refeição, arruma seu pequeno apartamento e às onze horas pega as filhas para almoçarem em casa. Mal terminam de comer, às 13 horas já estão novamente na rua, a caminho do Instituto Mundo Novo onde permanecem até as cinco horas. De lá, Fabiana leva as meninas para a casa de uma explicadora e às 7 horas voltam para jantar e dormir. No dia seguinte retomam sua rotina. Muitas mães têm a mesma dedicação, mas poucas conseguem as realizações de Fabiana e suas filhas.

A vida das três personagens mudou radicalmente quando Rayane descobriu seu amor pela dança na ONG Mundo Novo. Uma de suas professoras de balé, percebendo sua habilidade e dedicação, inscreveu-a para fazer uma prova na escola de dança Maria Olenewa ligada ao Theatro Municipal. Fabiana teve uma alegria e um baque, como disse em reportagem ao R7, jornal da TV Record. Sua filha Rayane, de nove anos, fora aprovada e iniciava uma carreira de bailarina e, quem sabe um dia, fará parte do corpo de baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

No fim da primeira semana quase desistiu quando viu que tudo o que ganhava em seu trabalho era gasto em passagens. Quando disse à pequena bailarina que não poderia arcar com a despesa viu seus olhos se encherem de lágrimas. Mal sabia que muitas pessoas iriam ajudá-la e em especial o próprio Instituto Mundo Novo que fez uma campanha pela internet e conseguiu uma doação que bancará não só as passagens como tudo o que for necessário para a consecução do sonho de Rayane.

Agora, todos os dias, depois das aulas do colégio, às 11 horas, Rayane sai com Fabiana da Chatuba, deixa Rayssa na ONG e pega as três conduções para ter uma hora e meia de aula no Municipal. Muitas vezes almoça no trem e anda dois quilômetros na volta para casa para economizar na passagem. Tendo esse apadrinhamento obtido pela ONG Mundo Novo, Fabiana poderá continuar lutando pela pequena bailarina que nasceu na Chatuba e conseguiu com esforço, dedicação e amor pela dança clássica ser aluna de uma escola de primeira linha.

Fabiana agradece aos muitos amigos e familiares que a ajudam e está feliz por poder realizar o sonho de Rayane. Rayssa também tem seus sonhos e, certamente irá conseguir realizá-los.

Fora das trincheiras a vida é feita de mães anônimas e de pessoas generosas que enfrentam muitos desafios cotidianos de quem vive como todos os brasileiros comuns.

Foto Cma: bailarinas da escola de dança Maria Olenewa

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