Os desafios e regras do jogo econômico, explicados ao leitor comum

Na esteira do extraordinário sucesso de vendas do fenômeno “Freakonomics – O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta”, de Steven Levitt e Stephen Dubner, nos últimos anos diversos autores se dedicaram a produzir livros que tentam explicar o funcionamento da economia para o leitor comum. Nem sempre esse empenho é bem-sucedido, mas de vez em quando resulta em algo digno de nota. “Economia – O que é, para que serve, como funciona”, de Charles Wheelan (Zahar, 384 pgs. R$ 69,90), se destaca pela clareza e leveza com que apresenta conceitos e instituições do universo econômico: o poder dos mercados, o papel dos incentivos, a ação do governo, a propriedade, o capital humano e a economia da informação são alguns dos temas abordados, sem gráficos, equações nem jargões.


Mas o capítulo mais interessante de “Economia” (no original, “Naked Economics”) é o último, no qual Wheelan apresenta sete questões cruciais, cujas respostas determinarão a situação econômica do planeta em 2050. Isso porque a economia não pré-ordena o futuro: ela é apenas um conjunto de ferramentas, que pode ser usado de diferentes maneiras, a depender de objetivos e prioridades da sociedade – e da disposição de arcar com os custos necessários para alcançar os resultados que almejamos. As sete questões são as seguintes:


Capa do livro 'Economia – O que é, para que serve, como funciona', de Charles Wheelan1)Quantos minutos de trabalho custará uma bisnaga de pão?

É a questão da produtividade, que no fundo determina todas as outras. Qual é a relação ótima entre tempo e riqueza? Existe um ponto de equilíbrio ideal? Até que ponto a riqueza compensa o fato de se trabalhar mais, tirar menos férias e se aposentar mais tarde? Nos Estados Unidos, argumenta o autor, a produtividade e o padrão de vida são elevados porque os americanos valorizam mais a riqueza que o tempo. (Enquanto isso, no Brasil, o sonho de muitas pessoas é trabalhar pouco e se aposentar antes dos 50 anos…)



2)
Haverá quanta gente dormindo debaixo do viaduto?

Cada escolha, uma renúncia. Segundo Wheelan, países com uma rede de proteção maior e benefícios sociais mais amplos garantidos em lei apresentam índices de pobreza e desigualdade menores, mas também menor crescimento, taxas maiores de desemprego e baixo grau de inovação e empreendedorismo. Em outras palavras, as economias mais ricas e dinâmicas do planeta costumam ser também as mais severas e desiguais. Qual é o melhor modelo?



3)
Usaremos o mercado de forma imaginativa para resolver problemas sociais?

As pessoas respondem a incentivos, mais que a obrigações. Por exemplo, em vez de tributar a atividade produtiva, o trabalho, a poupança e os investimento, o autor argumenta que elevar a renda e criar incentivos apropriados – à pesquisa, à reciclagem, ao melhor desempenho do sistema escolar – trariam benefícios muito maiores e mais duradouros para a economia.



4)
Teremos centros de conveniência para o consumidor em 2050?

Fato: valores como a cultura, a beleza e a arte podem e devem ser protegidos da competição não-regulada do mercado. Nem por isso preferências estéticas de um grupo ou classe social devem ser impostos ao conjunto da sociedade sem doses pesadas de cautela. Wheelan se refere aos centros comerciais esteticamente sofríveis (os strip malls), mas que atendem a necessidades de muitos cidadãos comuns. Além disso, os custos de qualquer política deveriam recair com mais peso sobre aqueles que desfrutam de seus benefícios.



5)
Teremos uma política monetária definida?

A crise de 2007 reacendeu um velho debate. A lei férrea do capitalismo segundo a qual empresas ruins devem fracassar pode ser seguida à risca em uma economia global interdependente? Wheelan sugere que não, pois o sistema financeiro real não é um modelo teórico em que empresas fortes prosperam em uma crise, e empresas fracas naufragam: lembra mais um grupo de alpinistas amarrados uns aos outros na beira do abismo. A questão é: como punir os vilões sem arrastar todos para o precipício?



6)
Em 2050, será que o termo “tigres africanos” vai se referir à vida selvagem ou a histórias de desenvolvimento e sucesso?

É perfeitamente possível que países se transformem radicalmente em questão de poucas décadas (exemplo: Coreia do Sul). Mas, para que a África subsaariana deixe de cambalear década após década na pobreza extrema, só existe um caminho: investir em capital humano, via educação de qualidade. É claro que os países ricos podem e devem ajudar, com recursos e tecnologia voltados para o desenvolvimento da região.



7)
Os Estados Unidos podem botar a ordem na casa em termos fiscais?

A questão também se aplica ao Brasil. Matemática é matemática, e não há narrativa política capaz de mudar uma trajetória insustentável rumo ao colapso. As pessoas precisam entender que um Estado maior significa impostos mais altos: ou pagamos caro por um governo paternalista (mas nem sempre eficiente) ou reduzimos o Estado ao tamanho que podemos e estamos dispostos a financiar. Ficar como está não é uma opção.

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