‘Trilha sonora para o fim dos tempos’ visita a História recente da Rússia

Capa do livro 'Trilha sonora para o fim dos tempos', de Anthony MarraApontado pela revista “Granta” como uma das melhores revelações da literatura americana da última década, Anthony Marra trafega entre o conto e o romance no livro “Trilha sonora para o fim dos tempos” (Intrínseca, 304 pgs. R$ 49,90), uma reunião de histórias entrelaçadas e costuradas por um denominador comum: a História recente da Rússia, da época de Stalin ao presente. Marra supera com louvor os desafios inerentes à ambição de combinar dramas individuais e coletivos, mostrando como uns e outros se espelham e se alimentam reciprocamente.

Com um senso de humor peculiar, Marra reúne um elenco de personagens que, por sua força emotiva, parecem saídos dos grandes romances russos do século 19, em uma narrativa elegante, poética e levemente irônica, que ecoa o melhor Nabokov. Nesse sentido, por ousar revisitar grandes temas existenciais e políticos, o escritor – que viveu e estudou no Leste europeu e também é autor do premiado “Uma constelação de fenômenos vitais” – se destaca um uma paisagem marcada por uma ficção autocentrada e autocomplacente.

No primeiro conto – ou no primeiro capítulo desse romance-mosaico – o protagonista é um artista que, no final dos anos 30, em Leningrado, trabalha como censor, removendo de pinturas e fotografias os traços dos traidores do regime stalinista. Entre os rostos que ele remove da (ou reinsere na) História está o de seu próprio irmão, condenado à morte. Sua visita à cunhada condensa a tragédia de um povo condenado ao silêncio: o medo faz com que o artista-censor introjete a lógica da ditadura, a ponto de ele próprio acreditar (ou fingir acreditar) que a eliminação dos adversários era um preço baixo a pagar pelo futuro glorioso, de paz e justiça social, que aguardava o povo russo.

Com variações, o conflito vivido pelo artista-censor – a impossibilidade de manter a integridade pessoal diante de um Estado opressor e onipresente, que detém o poder sobre a vida e a morte, o passado e o futuro – atravessa todas as histórias de “Trilha sonora para o fim dos tempos”. O personagem reaparece no conto final, agora como objeto de uma pesquisa empreendida por uma historiadora da arte, que tenta desvendar o mistério que se esconde em sua obra, na Rússia dos dias atuais. O poder redentor da arte se soma assim a outros temas abordados no livro, como a lealdade, a família, a memória, o sacrifício a violência e o legado da guerra.

Entra a primeira e a última história de “Trilha sonora para o fim dos tempos” (“The Tsar of Love and Techno”, no original), personagens os mais variados ilustram pequenas tragédias pessoais em diferentes momentos de uma sociedade em constante transformação: uma bailarina caída em desgraça, mendigos, espiões poloneses, prisioneiras de Gulags, uma jovem siberiana, um soldado da Chechênia e mesmo um lobo. Todos são atravessados pelos sentimentos de injustiça e desolação, de frustração e nostalgia, de esperança e melancolia que parecem ser, desde sempre, traços distintivos do povo russo.

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