A diferença entre esquerda e direita segundo Roger Scruton: entenda

Tolos, Fraudes e Militantes: livro de Roger Scruton“Tolos, fraudes e militantes” (Record, 406 pgs. R$ 54,90) é uma versão revista, aumentada e atualizada do já clássico “Pensadores da Nova Esquerda”, coletânea de ensaios lançada pelo filósofo conservador britânico Roger Scruton em 1995: alguns capítulos foram editados, como aqueles sobre Gramsci e Althusser; outros excluídos; e substancial material novo foi acrescentado, incluindo textos sobre Alan Badiou e Slavoj Zizek. Mas o que esta nova versão traz de mais interessante são os ensaios com que o autor começa e conclui o livro: “O que é a esquerda?” e “O que é a direita?”

Scruton examina, de um ponto de vista conservador, em que se transformou a esquerda após o colapso do comunismo, e como sua ideologia se adaptou ao novo contexto internacional, apropriando-se de novas bandeiras. Mas não é só isso: ele questiona o próprio gradiente ideológico que classifica e distribui todos os temas e opiniões políticas em uma dimensão unilinear, gerando uma percepção distorcida do mundo – de forma que, por exemplo, a preocupação com o “social” passa a ser vista como um valor absoluto e exclusivo da esquerda.

Cria-se, assim, uma assimetria moral, que atribui à esquerda o monopólio da virtude e transforma “direita” em um termo pejorativo: “Por uma incansável campanha de intimidação, os pensadores da esquerda tentaram tornar inaceitável estar à direita”, escreve o autor. “Uma vez identificado com a direita, você está além do argumento, suas visões são irrelevantes, seu caráter é desacreditado e sua presença no mundo é um erro. Você não é um oponente com o qual argumentar, mas uma doença a ser evitada.”

Bastante esclarecedora, nesse sentido, é a percepção de que a nova esquerda abandonou suas bandeiras tradicionais, como a revolução da classe proletária, por outras, muito mais eficazes e atraentes, passando a apresentar-se como portadora exclusiva da defesa dos direitos das minorias – como se as minorias fossem respeitadas nos regimes que ainda se dizem de esquerda.

Sobretudo no meio acadêmico, esse fenômeno vem ganhando contornos assustadores no Brasil, mas não é recente. Já na década de 30 do século passado, respondendo a um ataque de seu colega Edmund Wilson, o escritor F.Scott Fitzgerald afirmou: “O importante é que não se discuta [com os esquerdistas]. Não importa o que você diga, eles encontram mil maneiras de distorcer suas palavras e rebaixá-lo a alguma categoria inferior de ser humano: ‘fascista’, ‘liberal’ (…), desqualificando-o tanto intelectualmente quanto pessoalmente no processo”.

Ao mesmo tempo, valores associados à direita, e até mesmo aquelas normas legais e princípios morais compartilhados que são indispensáveis à vida em sociedade, são relativizados e passam a ser entendidos como meros exercícios de luta por poder classe e dominação. Idem em relação aos conceitos de Estado de direito, da separação dos poderes, do direito à propriedade, reduzidos a ferramentas da perpetuação da dominação burguesa.

Para a esquerda, afirma Scruton, os seres humanos estão sempre divididos em grupos de inocentes e culpados, e a justiça social é algo que precisa ser imposto pelo Estado, por meio de um plano que, ignorando os obstáculos dos direitos e deveres individuais, invariavelmente envolve privar as pessoas de coisas que elas adquiriram por meio de escolhas livres e negociações justas. Governar, assim, torna-se “a arte de tomar e redistribuir as coisas a que supostamente todos os cidadãos têm direito”.

Essa falta de valores compartilhados que caracteriza nossa época leva Scruton a identificar no ressentimento – o “prazer maior em rebaixar os outros que em elevar a si mesmos” – o motor de uma certa esquerda, que já não busca negociar com as estruturas existentes, mas sim torná-las objeto de sua raiva destruidora: “Ela será contra todas as formas de mediação, compromisso e debate, e contra as normas legais e morais que dão voz ao dissidente e soberania ao cidadão comum. Tentará destruir o inimigo, concebido em termos coletivos, como classe, grupo ou raça que até então controlou o mundo e que, agora, precisa ser controlado”.

Já para a direita, segundo o autor, cada indivíduo está ligado a particularidades e contingências, a motivações e vontades que são irredutíveis a qualquer teoria abstrata ou plano econômico quinquenal – daí sua constrangedora (para a esquerda) tendência a rejeitar qualquer plano que sacrifique sua liberdade de escolha e seus direitos, ou que ameace o império da lei e a autonomia de instituições que existem para protegê-lo, não para esmagá-lo.

Em suma, segundo Scruton a premissa da esquerda é que a marcha da História é previsível e controlável, enquanto a da direita é que essa marcha é determinada por desafios novos e imprevisíveis que se colocam a cada dia, e para os quais não existe receita de bolo. Para a esquerda não existe surpresa, e tudo é justificável: até mesmo as atrocidades cometidas por regimes comunistas são minimizadas, colocando-se a culpa nas forças reacionárias que resistem ao socialismo e impedem o seu avanço.

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