‘Com amor, Van Gogh’ combina as linguagens do cinema e da pintura

Muito mais que um longa-metragem de animação convencional, “Com amor, Van Gogh”, de Dorota Kobiela e Hugh Welchman, é uma experiência sensorial fascinante, na qual a linguagem da pintura é usada como meio de expressão para contar os últimos meses da vida do artista. O desafio consumiu oito anos de produção artesanal, ao longo da qual uma equipe de mais de 100 artistas emulou as técnicas e o estilo do pintor holandês na confecção das 65 mil telas a óleo que correspondem aos frames do filme, projetados à razão de 12 por segundo. O filme entrou em cartaz neste fim de semana.

Graduada em Belas Artes e em cinema de animação, já em 2007 Dorota decidiu combinar as duas formações em um ambicioso projeto do que seria então um curta-metragem sobre a vida de Van Gogh. Estimulada por seu parceiro Welchman, ganhador do Oscar de melhor animação em 2008 com “Pedro e o lobo”, o projeto cresceu e virou um longa, que só foi concluído este ano. Valeu a pena esperar, porque o resultado é plasticamente deslumbrante, sobretudo em uma época na qual o cinema de animação parece ter se tornado refém de sofisticados (mas previsíveis) efeitos digitais.

Assista abaixo ao trailer de “Com amor, Van Gogh”:

Boa parte das pinturas foi feita tomando como base a filmagem de atores reais, por meio da técnica de rotoscopia: por exemplo, Douglas Booth interpreta Armand Roulin, a irlandesa Saoirse Ronan interpreta Marguerite Gachet, filha do médico Paul Gachet, que tratou do artista em seus últimos anos, enquanto o próprio Gachet é interpretado pelo ator britânico Jerome Flynn. Mas a matéria-prima principal da dupla de cineastas foram 130 quadros de Van Gogh e as 800 cartas que ele escreveu ao irmão Theo, muitas das quais falam de suas angústias pessoais e de seu processo criativo.

A história começa um ano após a morte do pintor. O carteiro Roulin envia seu filho Armand a Paris, com a tarefa de entregar uma carta de Van Gogh a seu irmão. Quando Armand descobre que Theo também está morto, ele inicia uma jornada em busca de personagens que posaram para Van Gogh ou conviveram com ele em seus últimos meses de vida, conferindo à trama as características de documentário fake: é a partir dos depoimentos desses personagens – cujas lembranças aparecem em preto-e-branco – que se constrói a trama.

A ideia é investigar os antecedentes da morte do pintor, que se matou aos 37 anos. Ou não, uma vez que, inspirados na biografia de Van Gogh lançada em 2011 por Steven Naifeh e Gregory White, Kobiela e Welchman especulam, sem chegar a uma conclusão, se o artista não teria cometido suicídio, e sim sido assassinado por um jovem de 16 anos, René Secrétan. O roteiro é até certo ponto inventivo, mas o principal mérito de “Com amor, Van Gogh” é mesmo a ousada aproximação que promove entre as linguagens do cinema e da pintura.

Deixe uma resposta