Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca, uma orquestra pela paz

Um verdadeiro milagre foi o que vi e ouvi na segunda-feira 27 de novembro. Milagre porque, em meio à cacofonia de teorias de educação e ideologias pedagógicas, um secretário de municipal de educação acreditou que os estudantes podiam mais, muito mais. Cesar Benjamin e sua equipe coordenada por Moana Mariaram a Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca, um braço do Programa Orquestra na escola desenvolvido desde o início de 2017, que fez sua estreia na grande sala da Cidade das Artes, com a plateia, as frisas e a galeria lotadas.

A emoção era grande pois lá não estavam músicos profissionais, mas estudantes e professores das escolas municipais da cidade do Rio de Janeiro e regentes convidados. Mais de mil alunos, meninos e meninas de todas as idades, entoaram entre outras a belíssima composição “O trenzinho do caipira” de Villa Lobos com letra de Ferreira Gullar e arranjos do maestro Anderson Alves. Ao lado de Villa-Lobos, temas do folclore brasileiro e de outros grandes compositores e suas lindas músicas foram apresentadas: Guerra Peixe, Chico Buarque, Alberto Nepomuceno, Luiz Gonzaga, Abdulah, Cartola, Pixinguinha, terminando com Tom Jobim “Samba de uma nota só” com arranjos de Anderson Alves e a maravilhosa solista Ana Paula Reis dos Santos, uma jovem estudante de voz firme, forte e belíssima.

Tive o privilégio de sentar ao lado de uma professora de música de uma das escolas que se apresentavam e do pai de uma aluna bem pequena da mesma escola onde a mestra leciona. Não contive as lágrimas e chorei com o pai, a professora, os outros pais, avós, tios, amigos, autoridades e muitos colegas das dez escolas-polo que se apresentaram e certamente tinham no coração a mesma esperança que enchia o meu.

Olhando para o palco repleto de meninos e meninas de todas as cores, compenetrados, lindos, todos bem penteados com seus cabelos de muitos jeitos e tocando instrumentos variados pensei que o País em que vivemos é lindo! Há tanta gente que brilha e, nesta orquestra, todos brilhavam.

Villa-Lobos me veio à lembrança com grande emoção, pois sob sua batuta, nos anos 1930/40 promovia apresentações de canto orfeônico que reunia estudantes em estádios de futebol. O projeto da atual Secretaria Municipal de Educação certamente se inspirou no nosso maestro maior. Como diz o folheto do programa de estreia da Orquestra, o objetivo é iniciar “um caminho de oportunidades para todos os estudantes das escolas públicas do Rio de Janeiro”. A apresentação contou também com a participação de outros grupos de música ligados às escolas.

A música é uma linguagem universal e os que estavam ali sabem disso, aprenderam isso e certamente serão as sementes de um futuro mais doce para a nossa cidade.

Lembrei-me da West-Eastern Divan Orchestra criada pelo maravilhoso pianista judeu Daniel Berenboim e pelo intelectual cristão palestino Edward Said, uma orquestra de gente grande composta por músicos do Oriente Médio – do Egito, Irã, Israel, Jordânia, Palestina, Síria e da Espanha. A orquestra, sediada em Sevilha, na Espanha, une músicos mesmo em momentos de acirramento dos conflitos do Oriente Médio e todos eles de um lado e de outro atendem ao chamado do regente e mesmo com posições divergentes unem-se pela música. O objetivo é o de promover um diálogo de paz entre judeus e não judeus do Oriente Médio.

A Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca seguindo a trilha do pianista e do intelectual também uniu pela música estudantes e professores que hoje vivem a realidade de comunidades e regiões divididas e dominadas por facções do tráfico de drogas e milícias.

O concerto de 27 de novembro foi sua estreia (foto abaixo). Apresentou-se para um grande público e foi um fabuloso espetáculo.

Estreia da Orquestra Sinfônica Juvenil Carioca

(Foto: Yvonne Maggie/Arquivo pessoal)

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