Marcelo Caldi exercita dom em disco que situa a sanfona além do forró


Instrumento popularizado no Brasil nas décadas de 1940 e 1950, quando Luiz Gonzaga (1912 – 1989) mostrou ao país como se tocava e dançava o baião, a sanfona desde então esteve primordialmente associada ao universo rítmico do forró, rótulo genérico que abarca diversos gêneros de música nordestina.

Compositor e instrumentista carioca, Marcelo Caldi jamais nega essa vocação do acordeom ao longo das 11 faixas do álbum solo A sanfona é meu dom, disco instrumental lançado nesta última semana de novembro de 2017 em edição independente. Toda a alegria normalmente gerada pelo toque da sanfona na música nordestina já está exposta no exuberante tema que abre o CD, Forró do Hey (Marcelo Caldi e Silvério Pontes), e na serelepe quadrilha Bagunça boa (Marcelo Caldi).

Contudo, escorado no dom de fazer soar o toque da sanfona, Caldi vai além do universo forrozeiro, explorando no álbum outros tons e possibilidades do acordeom. Exatamente como já fazia com singular maestria, por exemplo, o antecessor Dominguinhos (1941 – 2013), mestre de várias gerações celebrado na valsa obviamente intitulada Homenagem a Dominguinhos (Marcelo Caldi) e gravada gravada somente com os toques das sanfonas de Caldi, Bebê Kramer e Kiko Horta.


A valsa em tributo a Dominguinhos embute algo de choro, reiterando a abertura do leque rítmico de álbum que flerta até com o jazz cigano em Yamandouche(Marcelo Caldi), tema cujo título foi criado com a junção do nome do violonista homenageado na faixa, Yamandu Costa, com jazz manouche, termo que designa a vertente jazzística da música cigana.


Por mais que músicas como Acertando as contas com mamãe (Marcelo Caldi) nem sempre estejam à altura do virtuosismo deste instrumentista também hábil no toque do piano, o álbum A sanfona é meu dom conserva poder de sedução. Mesmo quando transita dentro do tradicional universo da música nordestina (como no Forró da Paraíba, gravado por Caldi com o bandolinista Hamilton de Holanda, parceiro na composição do tema), o disco sempre foge dos clichês rítmicos. O passeio por gêneros como valsa (Antiga como nosso amor, tema de Caldi) e choro (Tortuoso, outra composição somente de Caldi) reitera o dom que o músico já expõe no título do álbum. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum A sanfona é meu dom. Marcelo Caldi em foto de Leo Aversa. Arte de Cynthia C)

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