Poesia e som de Alzira E se afiam na lâmina incisiva do profundo ‘CORTE’


“Nada disso nos pertence / Nem o sol nem o sal / Nem a sede da semente / Num instante tudo expande / Tudo se desprende”, alerta Alzira E, através dos versos do poeta arrudA, em Nada disso (Alzira E e arrudaA), primeira das dez músicas de CORTE, álbum lançado pela YB Music cuja recém-disponibilizada edição em CD ostenta capa artesanal. Disco gerado a partir de show estreado em 2015, CORTE soa como recorte do estado apocalíptico do mundo atual.


Não se trata de um álbum da cantora de origem sul mato-grossense com o coletivo paulistano Bixiga 70, mas de disco nascido da conexão salutar de Alzira E (voz e baixo) com os músicos Marcelo Dworecki (guitarra e baixo), Fernando Thomaz (bateria), Cuca Ferreira (sax barítono e flauta) e Daniel Gralha (trompete e flugelhorn), todos associados ao grupo, com exceção de Thomaz.


Gravado ao vivo em estúdio da cidade de São Paulo (SP), em quatro dias do mês de maio de 2016, o disco reverbera show de espírito roqueiro, ainda que o rock esteja mais na atitude dos artistas e na ideologia do repertório do que na sonoridade em si. De todo modo, sim, o rock está sempre lá, às vezes explicitamente, como na pegada de Não me invente (Alzira E) e de certas passagens de Desmonte (Alzira E e Tiganá Santana), faixa que embute dissonâncias e um toque de bateria (de Fernando Thomaz) que evoca o sombrio clima de fim de mundo que pauta a criação desse disco surgido a partir de convite de Marcelo Dworecki a Alzira E para que a cantora se juntasse ao músico em show que acabou ganhando as adesões dos três músicos do álbum.


O registro da união da cantora com esses músicos de vivência paulistana (a mesma de Alzira) resulta vigoroso. A poesia e o som de CORTE se afiam na lâmina incisiva do álbum, cujo repertório é formado por dez músicas da lavra autoral de Alzira E. Três – Intriga, a já mencionada Não me invente e O que move – foram criadas solitariamente. As outras sete composições nasceram de parcerias da cantora compositora com arrudA e Tiganá Santana.


A guitarra de Marcelo Dworecki soa afiada em músicas como O que move. Contudo, o toque mais inusitado da sonoridade de CORTE reside no sopro incisivo dos metais de Cuca Ferreira e Daniel Gralha. Em vez de fazerem o disco cair em suingue que diluiria a força da poesia e do próprio som, os toques do saxofone, do trompete e do flugelhorn contribuem para que o disco corte a carne do ouvinte feito faca amolada.


Fora desse contexto sonoro e poético, músicas como Em nome de quem (Alzira E e arrudA) talvez até soassem insossas. Dentro do conjunto perfurante de CORTE, todas fazem sentido. Do grito nervoso que sai de Boca talhada (Alzira E e Tiganá Santana) à reflexão sobre a finitude (da dor, da fome, do homem) feita em Dízima (Alzira E e Tiganá Santana), música sagazmente alocada ao fecho do disco, CORTE se impõe profundo ao alertar sobre a segurança ilusória do homem no fim do mundo. Como canta Alzira em Cheguei (Alzira E e Tiganá Santana), “Cheguei / E a chegada nem é lá”. (Cotação: * * * * 1/2)


(Créditos das imagens: Alzira E e músicos em foto de Marina Thomé. Capa do álbum CORTE)

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