Ilusões perdidas, e a boa trilha musical de sempre

O Brasil caminha a passos largos para incertezas maiores. A parcialidade da operação Lava Jato está aparente até para muitos dos que bateram panela, enquanto vemos o descaramento da gangue instalada no Planalto, a começar pelo traíra mor; o despreparo da maioria dos representantes do povo no Congresso, os privilégios da casta de promotores, desembargadores, juízes e afins, a ganância de empresários e banqueiros… Enfim, o elenco de exemplos é interminável e tétrico.

Mas, o tempo não para, as eleições de 2018 vão chegar e, a menos que outro golpe dentro do golpe que não se assume seja dado, as chances de Lula voltar aumentam. Para o bem e para o mal, talvez, graças a muitas das alianças arriscadas de antes. Ou seja, mesmo com essa hipótese (e entre o Sapo Barbudo e adversários patéticos como dória-huck-bolsonazi não há dúvida em quem votar) retrocedemos uma década e meia. Mas, agora, com um quadro bem mais instável e sem ilusões. Enfrentemos a realidade, portanto, e tentemos contribuir para as mudanças.

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Hora de partir para a habitual CDesovada dos sábados. Quase que bisando o placar do último, são seis títulos físicos e dois digitais. Interessantes o bastante para, a princípio, render muito blablablá, mas, tentarei ser mais breve e claro. Rápido, rasteiro e com o que me proponho a dividir com leitores: opinião baseada num misto de gosto pessoal, critérios técnico-musicais e históricos.

Novo disco do compositor e sanfoneiro (e pianista, tecladista) Marcelo Caldi, “Sanfona é meu dom” (ind. / www.marcelocaldi.com / distr. digital ONErpm) apresenta 11 composições inéditas, apenas uma com letra (“Xote do guriatã”, parceria com Sérgio Ricardo, cantada por Marcelo Mimoso). Nelas, Caldi explora o abrangente leque de possibilidades que seu instrumento principal permite. Prossegue por trilhas nordestinas em “Forró do Hey” (parceria com Silvério Pontes, que também participa com seu trompete), “Homenagem a Dominguinhos” (gravada por um trio de sanfonas completado por Bebê Kramer e Kiko Horta) e “Forró na Paraíba” (parceria com o bandolinista Hamilton de Holanda, outro convidado especial no CD); e também viaja até o Sul, em temas nos quais tango e milonga são referências, caso de “Acertando as contas com mamãe” e a cigana “Yamandouche” (com participação do homenageado Yamandu Costa no violão de 7 cordas lembrando de Django Reinhardt, paralelo reforçado pelo violino do francês Nicolas Krassik). É um trajeto que, obrigatoriamente, também passa por valsa & choro do Rio em temas como “Tortuoso”, “Antiga como nosso amor” e “Bagunça boa”. Em suma, música brasileira (e universal) em sua diversidade.

Bom de ouvir. Para também entrar na biblioteca digital, antes de descansar na estante junto a alguns dos CDs anteriores de Marcelo Caldi (solo, em dupla ou no grupo LiberTango, que mantém com o irmão, o flautista/saxofonista Alexandre, e a mãe de ambos, a pianista Estela Caldi).

E música que, nesta terça-feira, dia 28/11, a partir das 20h, vai prosseguir no show de lançamento, na Sala Cecília Meireles. Um trio com Marcelo Caldi, Diego Zangado (bateria) e Rogério Caetano (violão de 7 cordas), mais as participações de muitos dos que também se alternaram nas gravações, incluindo o Estela e Alexandre Caldi, Nicolas Krassik (violino), Silvério Pontes (sopros), Fabiano Salek (percussão), Bebê Kramer (sanfona), Kiko Horta (sanfona), Zé Luiz Maia (contrabaixo), PC Castilho (sopros), Guto Wirtti (contrabaixo), Marcelo Mimoso (voz), Eduardo Neves (sopros), Rafael dos Anjos (guitarra), Bebel Nicioli (sopros) e Quarteto Radamés Gnattali.

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Outro instrumental, e também com lançamento marcado para esta terça, nas mesmas 20h – só que longe de meu raio de ação, em Curitiba, no Teatro Regina Vogue -, é “Emmanuel Bach e Grupo” (ind., apoio do programa estadual de fomento cultural). Guitarrista e autor dos oito temas do disco, Bach é fluente no instrumento, usado em formação jazzística, linguagem que desenvolveu em duas das principais universidades de música dos EUA, Berklee College of Music (Boston) e Musicians Institute (Los Angeles).

Ao lado do guitarrista, integram o grupo Thiago Duarte (contrabaixo), Fernando Rivabem (bateria), Leonardo dos Santos (harmônica) e Davi Sartori (piano e Fender Rhodes). Bons companheiros, também com autonomia para solos nos inventivos planos de voos criados por Bach. É música que merece mais atenção, crescendo a cada nova dose, e vai frequentar por mais uns tempos o tocador de CDs.

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Após quatro bons discos solos e um DVD (este, “Pelos caminhos do som”, em 2015, promoveu um original recorte da obra de Martinho da Vila), a cantora e compositora Ana Costa divide “Do começo ao infinito” (Zambo / MDM / www.anacosta.art.br) com o bandolinista Carrapicho Rangel. O duo de voz e bandolim, com pontuais participações em algumas faixas de percussão ou violão, é a espinha dorsal do ousado e vigoroso projeto.

Ana reafirma a boa mão como compositora. Ela assina nove dos 12 sambas, choros e valsas, sempre com diferentes parceiros se alternando: entre outros, Zélia Duncan, Socorro Lira, Marcelo Caldi, Moyseis Marques, João Cavalcanti e Vidal Assis (este, também cantando na sua, “Valsa de ferro”). As canções que completam o repertório mantêm o padrão, sendo que “Obrigado pelas flores” conta com a participação de um dos autores, Monarco (em parceria com Manacéa), num dueto com Ana que é também um aval de respeito.

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Após a morte de Magro (Antonio José Waghabi Filho), em agosto de 2012, o MPB4 cogitou sair de cena. Mas, Miltinho, Aquiles Reis e Dalmo Medeiros (que entrara para o grupo em 2004 no lugar de Ruy Farias) encontraram em Paulo Malaguti Pauleira um substituto à altura do cantor e arranjador original. Em 2016, essa formação renovada pode comemorar as cinco décadas de atividade do grupo com um forte disco de inéditas, ”O sonho, a vida, a Roda Viva!” Agora, o CD/DVD “50 anos / Ao vivo” (Som Livre / MP,B), reúne algumas dessas novas canções – incluindo “Desossado” (João Bosco e Francisco Bosco), “Milagres” (Paulo Cesar Pinheiro e Breno Ruiz), “Brasileia” (Guinga e Thiago Amud) e “A voz na distância” (Malaguti Pauleira) – com clássicos que eles sempre cantaram, como “Roda viva” (Chico Buarque) e “Cicatrizes” (Paulo Cesar Pinheiro e Miltinho).

Gravado, em outubro do ano passado, no Teatro Sesc Ginástico, no Rio, os quatro, mais um quarteto de instrumentistas – João Faria (baixo), Marcos Feijão (bateria), Pedro Reis (guitarra, violão e bandolim) e Ronaldo Silva (percussão) -, também receberam a dupla Kleiton & Kledir em “Vira virou”(Kleiton).


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Um mergulho em tradições musicais europeias da Idade Média e do Renascimento tendo como foco o mito do sebastianismo e seus reflexos no imaginário do Brasil é o que encontramos no CD, acompanhado de um livreto bilíngue (também em inglês), “Encantaria” (Selo Sesc). É o segundo do Anima (www.animamusica.art.br), formado por Gisela Nogueira (viola de arame), Luiz Fiaminghi (rabecas brasileiras), Marlui Miranda (voz), Paulo Dias (percussão e orgão portátil), Silvia Ricardino (harpa medieval) e Valeria Bittar (flautas doces), mais a artista convidada Cecilia Arellano (voz).

O grupo surgiu inspirado em pesquisas da ensaísta e crítica literária Walnice Nogueira Galvão. No disco anterior, lançado em 2010, “Donzela guerreira”, o tema era “o mito da mulher que encarna papéis masculinos para defender a honra”, conta-nos um dos textos no livreto atual, que também traz uma introdução escrita por Walnice, perfis de cada um dos instrumentistas e informações sobre as 18 músicas. Cantigas de tradição oral, algumas recolhidas por Mário de Andrade nos anos 1930, outras de autores medievais e renascentistas como Santiago de Murcia (1673-1739), Diego Ortiz (1510-1570), Lucas Ruiz de Ribayaz (1626-1677). Bilhetes para uma fascinante viagem no tempo.

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Para fechar o capítulo disco físico da semana, está o terceiro de Itamar Brant, cantor e compositor mineiro que conhecera há pouco mais de um ano, através de seu segundo, “A superfície da palavra”, originalmente lançado em 2013. Na época, fui rápido e rasteiro em meu comentário: “…Com participações de Toninho Horta, Silvia Machete, Marina Machado, Chico Amaral, é disco (…) que caminha dentro dos fundamentos da MPB”.

Agora, produzido pelo próprio, mais Robertinho Brant e Tattá Spalla, “Venerando pagã” (ind. / www.itamarbrant.com.br) caminha dentro dos fundamentos de uma MPB expandida. Mostra avanços e merece mais atenção: MPopB na veia (“Juízo”); pop banal em alguns momentos (“Você só ouve o que quer”); ecos da vanguarda paulistana em outros (“Corte”, em dueto com Carlos Careqa); sotaque nordestino (no xote “Seu Eurico”); aceno “clubedaesquineiro” na única composição que não é dele, “Morena bonita”, de Toninho Horta (parceria com Felipe Cordeiro), que canta e toca sua inconfundível guitarra; e, num dos destaques, o instrumental jazzy de “Juquehy”, que fecharia o CD em alta não fosse o desnecessário remix eletrônico de “Venerando pagã”.


@@@@@Digitais e experimentais


Calhou de os dois títulos por streaming que me atraíram a atenção esta semana avançaram por estranheza e experimentalismo. Algo indigestos em certos momentos, mas, cada qual de seu modo, com conteúdo provocativo.

Começo por um pernambucano que deu as caras durante a ebulição do mangue beat, mas sempre nadando contra a corrente na Santa Boemia. Efêmera banda que fazia uma MPB entre o conservatório e a vanguarda, equação que prosseguiu nos três álbuns solos de Armando Lôbo, gravados quando já morava no Rio. Agora, ele manda notícias musicais de Edinburgh, na Escócia. Foi lá, onde desenvolve tese de PhD em Composição Musical, que gravou “Myopic Serenade” (ind. / www.armandolobo.com / plataformas de streaming ).

Com letras em inglês, Lôbo (vozes, guitarra, cavaquinho, sintetizador, percussão, programação, edição de áudio) prossegue no mosaico de experimentalismo, folclore nordestino, samba desconstruído, gafieira jazzística, pop-eletrônico. Trilha caótica que, segundo o texto de divulgação, através de suas nove faixas procura interpretar o mundo contemporâneo: “a distopia da pós-modernidade, o erotismo chulo ou transcendente, a androginia, a festa e a decadência suicida”.

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Quase três anos após “Vulnicura”, álbum no qual o tema central foi sua traumática separação do artista plástico Matthew Barney (com quem viveu por dez anos e teve uma filha), Björk estaria trocando o inferno pelo paraíso com “Utopia” (desde ontem nas plataformas de streaming). São 14 faixas, totalizando mais de 71 minutos, também lançadas na Europa num álbum de vinil duplo, nas quais é difícil de identificar sinais dessa mudança de humor. Aqui está a Björk cada vez menos pop da última década, cada vez mais entranhada no experimentalismo e também (parabéns!) no ativismo político (feminismo e ecologia estão entre suas pautas).

Bisando a parceria com Arca (codinome de Alejandro Gherzi, um DJ e músico venezuelano radicado em Londres de 28 anos), dessa vez o músico (produção, programação, electronicos, synth melodies, beats e co-autor em cinco canções) participou do processo de criação desde o início. Foi dele a sugestão de que um naipe de flautas (“soando como sintetizadores”) ocupasse o papel das cordas usadas nos discos anteriores, sempre em diálogo com teclados eletrônicos (“soando como flautas”). Somemos a isso sons de pássaros gravados pela própria em caminhadas pelos descampados de sua Islândia natal, coro, harpa, violoncelo e contrabaixo e temos o material usado para a “Utopia” de Björk.

Tem seus momentos (“Tabula rasa”, com seu conselho para filhos não repetirem as merdas dos pais, é um exemplo), mesmo que impere o formato de poema musicado, música a serviço das letras. Vai continuar rodando no tocador digital e, espero, talvez me surpreenda. Mas, confesso, sinto saudades da Björk mais pop de sua trilogia inicial, “Debut” (1993), “Post” (1995) e “Homogenic” (1997).

Crédito imagens: reproduções capas dos discos comentados.

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