O palco fica cheio de som, silêncios e afeto no reencontro de Jussara e Rita


Em dezembro de 2007, as cantoras Jussara Silveira, Rita Benneditto e Teresa Cristina se uniram em show, Três meninas do Brasil, orquestrado sob a direção do jornalista e político baiano Jean Wyllys. Belíssimo, o show rendeu e gerou o CD e DVD Três meninas do Brasil ao vivo, lançados na virada de 2008 para 2009. Dez anos depois da estreia desse show em trio, duas das três meninas do Brasil, Jussara e Rita, se reúnem em espetáculo, Som e fúria, viabilizado pela Manaxica Produções sob a direção musical do violonista Fred Ferreira.


O mote é o álbum Som e fúria, lançado em 2014 em CD e em 2015 em edição digital. Produzido por Alê Siqueira sob a direção artística de José Miguel Wisnik, o disco Som e fúria foi pautado por salutares estranhezas musicais. Em cena, o disco cresce e gera grande show. Se a vida é cheia de som e fúria, como sentenciou o dramaturgo inglês William Shakespeare (1564 – 1616) em texto recitado por Jussara em cena, o palco do teatro da Caixa Cultural RJ ficou repleto de sons, delicadezas, silêncios e afetos na noite de ontem, 23 de novembro de 2017, estreia da temporada em cartaz somente até amanhã na cidade do Rio de Janeiro (RJ).


No palco em forma de arena, rodeadas por trio que inclui o magistral percussionista Marco Lobo e o igualmente virtuoso violoncelista Federico Puppi (além do já mencionado Fred Ferreira no violão, viola e guitarra), as cantoras se irmanam, grandiosas, na atmosfera suave de show que reverbera sons matriciais de forma inusitada. Quando Rita cantou Milagre (Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão, 2014) quase à capella, na abertura, o tom da voz límpida da cantora maranhense já deu a pista do clima do show. O canto de Rita foi, aos poucos, sendo entrelaçado com o de Jussara, mineira de vivência baiana cuja voz cristalina foi ganhando espaço ao ressoar os versos de Alguém cantando (Caetano Veloso, 1977). Ali, nesse início arrebatador, ficou evidente que estão em cena duas grandes cantoras do Brasil.


Na sequência, o mix trava-língua de A sílaba (Zeca Baleiro, 2014) com Trem, trole & trilho (tema de domínio público) fez o show cair com brasilidade no suingue da música do país, numa linha retomada eventualmente ao longo do show e, no bis, com o pot-pourri que amalgamou o samba Maricotinha (Dorival Caymmi, 1994) com temas já clássicos do samba de roda do Recôncavo Baiano como Dona da casa, Ó menina e Santo Amaro. Também vem da Bahia a batida do samba-reggae embutida no entrelaçamento do samba Para não contrariar você (Paulinho da Viola, 1970) – ouvido na voz de Jussara – com o samba-canção Matriz ou filial (Lúcio Cardim, 1965), revivido no canto preciso de Rita.


Assim como o disco, o show Som e fúria se escora na costura inventiva e vozes e músicas. Mas vai além, seguindo por caminhos próprios como a Estrada de Canindé (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950), número em que o violoncelo de Federico Puppi soou como rabeca, em sintonia com a aridez da terra nordestina. Veículo para a exposição do requebrado das cantoras, Maria, Mariazinha (Alípio Martins, 1989) é outro acréscimo do show em relação ao disco idealizado por Sérgio Guerra – assim como a oportuna lembrança de Som e fúria (José Miguel Wisnik e Paulo Neves, 1992) na voz de Jussara.


Além do suingue brasileiro, o show abarca números mais contemplativos em que roça o sublime. Quando Jussara cantou Ave Maria (Franz Schubert, 1825) com o baticum inebriante da percussão de Marco Lobo, foi criada no palco atmosfera celestial que reverberou no canto de Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad sobre poema de Vinicius de Moraes, 1973), número em duo que teve belo efeito visual, vocais dos músicos, programações e coro infantil sampleado da gravação do disco (a única ressalva do número, na estreia, foi o canto de Jussara soar menos interiorizado em parte desta música).


Em momento solo, Rita fez o momento tecnomacumba com Caboclo das sete encruzilhadas (Terecó da Tenda São José – Pirapemas / MA), pretexto para Jussara voltar à cena, na sequência, com o canto indígena Yô paranã. Mas foi da união que veio a maior beleza da cena. Como reiterou ao fim o canto em uníssono das meninas em Tom de voz (Cezar Mendes e Quito Ribeiro, 2014), o show Som e fúria pacifica e embala o espectador com a união de cantos e afetos. (Cotação: * * * * 1/2)


Eis o roteiro seguido em 23 de novembro de 2017 por Jussara Silveira e Rita Benneditto na estreia nacional do show Som e fúria na teatro da Caixa Cultural RJ na cidade do Rio de Janeiro (RJ):


1. Milagre (Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão, 2014) /

2. Alguém cantando (Caetano Veloso, 1977)

3. A sílaba (Zeca Baleiro, 2014) /

4. Trem, trole & trilho (tema de domínio público)

5. Para não contrariar você (Paulinho da Viola, 1970) /

6. Matriz ou filial (Lúcio Cardim, 1965)

7. Maria, Mariazinha (Alípio Martins, 1989)

8. Som e fúria (José Miguel Wisnik e Paulo Neves, 1992)

9. Outra noite (Franz Schubert e Matthaus Von Collin em versão em português de Arthur Nestrosvski) /

10. Ave Maria (Franz Schubert, 1825)

11. Caboclo das sete encruzilhadas (Terecó da Tenda São José – Pirapemas / MA)

12. Yo Paranã (canto indígena)

13. Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad sobre poema de Vinicius de Moraes, 1973)

14. Estrada de Canindé (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, 1950)

Bis:

15. Tom de voz (Cezar Mendes e Quito Ribeiro, 2014)

16. Maricotinha (Dorival Caymmi, 1994) / Dona da casa (domínio público) / Ó menina (domínio público) e Santo Amaro (domínio público)


(Créditos das imagens: Jussara Silveira e Rita Benneditto em fotos de divulgação de Alexandre Moreira na estreia nacional do show Som e fúria em 23 de novembro de 2017 na Caixa Cultural RJ, na cidade do Rio de Janeiro)

Deixe uma resposta