Com grandeza da voz, Tulipa sustenta leveza do álbum ‘TU’ em ótimo show


Como se fosse uma dominatrix, Tulipa Ruiz manuseou o microfone como se este fosse um chicote quando cantou o verso “E domestica animais”, do sambossa Desinibida (Tulipa Ruiz e Tomás Cunha Ferreira, 2012). Esse breve momento da apresentação do show TU no Theatro Net Rio na noite de terça-feira, 21 de novembro de 2017, exemplificou o quanto o show se agiganta na comparação com o (bom) quarto álbum da cantora e compositora paulistana, também intitulado TU e lançado neste mês de novembro nos formatos de CD, LP e em edição digital.


Como a própria cantora celebrou em cena, na estreia do show na cidade do Rio de Janeiro (RJ), TU é show para espaços cênicos menos dispersos como um teatro. E o fato é que Tulipa armou todo um jogo de cena que conquistou a plateia formada por amigos e fãs. Mas convém ressaltar que esse jogo foi armado em favor da musicalidade. Tulipa não precisa disfarçar deficiências e limites vocais com teatralidade, como algumas cantoras da geração dos anos 2010. Ao contrário: Tulipa é uma grande cantora e, no show TU, essa grandeza sustenta a cena. Ela está cantando especialmente bem, no auge vocal. Os trinados da artista em Sushi (Tulipa Ruiz e Luiz Chagas, 2010) arrancaram entusiásticos e merecidos aplausos na apresentação carioca de TU.


Tal como o disco, o show enquadra músicas novas e antigas da compositora em formato acústico, formado por mix do toque de violão (o de Gustavo Ruiz, coprodutor do disco) com sutis percussões (no show, a cargo de Samuel Fraga, que ocupa no palco o lugar que, no estúdio, foi de Stéphane San Juan, coprodutor do álbum TU). Quando percutiu somente um prato de bateria, como na música-título TU (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2017), Fraga mostrou que pegou o espírito da coisa. Ou seja, um jeito “pequeninho, baixinho”, como caracterizou a própria Tulipa Ruiz ao se dirigir ao público após cantar músicas recém-lançadas como Game (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2017) e Terrorista del amor (Ava Rocha, Gustavo Ruiz, Paola Alfamor, Saulo Duarte e Tulipa Ruiz, 2017), composição em espanhol que seguiu com latinidade a cadência bonita do samba.


Como no disco, Pedrinho (Tulipa Ruiz, 2010) se mostrou lépido e fagueiro na abertura de roteiro em que a cantora e os músicos extrapolaram o repertório do álbum TU. Músicas em si sedutoras, como É (Tulipa Ruiz, 2012), ficaram soltas, leves. Já as composições menos inspiradas, caso de Reclame aqui (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz, Luiz Chagas, Marcio Arantes e Caio Lopes, 2015), se beneficiaram desse formato mais despojado. Proporcional (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2015) ficou do tamanho GG no show TU. Foi outra música que evidenciou na estreia carioca de TU a grandeza e a segurança do canto de Tulipa, que brincou com a divisão e com o ritmo da música. Até Algo maior (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz e Luiz Chagas, 2015) cresceu. Já Dois cafés (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2012) continuou sem o sabor pop da gravação original do álbum Tudo tanto.


A atmosfera íntima do show permitiu e valorizou o envolvimento do público na apresentação. Número de voz e violão, Do amor (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2010) ganhou coro delicado da plateia, como se a música estivesse sendo cantada numa roda na sala da cantora. Música que Tulipa cantou sentada em canto do palco, Like this (Tulipa Ruiz e Ilhan Ersahin, 2012) foi outro ponto alto de apresentação em que a cantora realçou a poesia de Pólen (Tulipa Ruiz, 2017).


Enfim, Tulipa driblou a conveniência de fazer show econômico em tempos de crise com delicioso jogo de cena e refinada musicalidade. TU é um dos melhores show da cantora. Tulipa Ruiz sustenta em cena a leveza do álbum TU, se confirmando uma grande cantora do Brasil. (Cotação: * * * * 1/2)



Eis o roteiro seguido em 21 de novembro de 2017 por Tulipa Ruiz na estreia carioca do show TU no Theatro Net Rio, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):


1. Pedrinho (Tulipa Ruiz, 2010)

2. Game (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2017)

3. Terrorista del amor (Ava Rocha, Gustavo Ruiz, Paola Alfamor, Saulo Duarte e Tulipa Ruiz, 2017)

4. Tu (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2017)

5. É (Tulipa Ruiz, 2012)

6. Reclame aqui (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz, Luiz Chagas, Marcio Arantes e Caio Lopes, 2015)

7. Proporcional (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2015)

8. Desinibida (Tulipa Ruiz e Tomás Cunha Ferreira, 2012)

9. Do amor (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2010)

10. Algo maior (Tulipa Ruiz, Gustavo Ruiz e Luiz Chagas, 2015)

11. Like this (Tulipa Ruiz e Ilhan Ersahin, 2012)

12. Dois cafés (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2012)

13. Sushi (Tulipa Ruiz e Luiz Chagas, 2010)

14. Pólen (Tulipa Ruiz, 2017)

Bis:

15. Efêmera (Tulipa Ruiz, 2010)

16. Pedra (Luiz Chagas sobre poema de Dirceu Rodrigues, 2017)

17. Prumo (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2015)

18. Game (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2017)


(Créditos das imagens: Tulipa Ruiz em fotos de Mauro Ferreira na estreia do show TU no Theatro Net Rio, em 21 de novembro de 2017)

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