Mantra e música para prosseguir

Como uma mantra, penso que não devo deixar o baixo astral político contaminar a habitual CDesovada. Mas, os dias têm sido pródigos em mazelas e acabo saindo da rota principal dessa coluna sentimusical. Afinal, parecem rir da nossa cara, como, na tarde de ontem (17/11), fizeram os deputados fluminenses que tiraram da prisão seus três colegas. Placar (39 contra 19, uma abstenção e 11 ausências) que era esperado, gente que faz parte do esquema criminoso que não para.

Se Cabral mofa atrás das grades há um ano acusado de tantos crimes, já condenado por alguns, como explicar que o Rio seja desgovernado por aquele que foi seu vice e secretário de Obras? Pior é que tanto este quanto o inominável bispo-prefeito carioca foram eleitos, assim como os ignóbeis deputados.

Não vamos desistir. E, amanhã, no Rio, a caminhada LGBTI na orla de Copacabana é mais uma forma de luta.


@@@@@Jazz que vem de Recife

Na inevitável lista de destaques de 2017, “Sangue Negro”, disco do pianista e compositor Amaro Freitas tem lugar garantido. Impressão que foi reforçada pela apresentação do músico pernambucano na noite de ontem, no Blue Note carioca, com seu trio completado por Jean Elton (contrabaixo) e Hugo Medeiros (bateria). Jazz entranhado a frevo, samba, maracatu, baião, em repertório que incluiu cinco temas deste que é seu álbum de estreia (“Norte”, “Samba de César”, “Subindo o morro”, “Encruzilhada” e “Sangue negro”), duas composições novas (“Mantra” e “Baião de Dona Eni”) e ainda a desconstrução de dois clássicos da canção brasileira, “Luiza” (Tom Jobim) e “Lamento sertanejo” (Dominguinhos e Gilberto Gil). Grande música para, infelizmente, um público pequeno. Hoje, sábado, tem mais, a partir das 20h. Para quem não conhece, imperdível. Para aqueles que já ouviram, mais uma chance de conferir um nome que ainda vai ser muito falado.

@@@@@Cinema libanês

Ainda no modo agenda, a partir da próxima quinta-feira, dia 23, e se estendendo até o dia 29 de novembro, Rio e São Paulo vão receber “Este é o Líbano – Panorama do Cinema Libanês”. Rara oportunidade para conhecermos a recente produção do pequeno país do Oriente Médio que está tão presente no Brasil. Nada conheço da cinematografia da terra natal de meu pai e pretendo conferir alguns dos 20 longa-metragens que serão exibidos, a maioria deles lançados nos últimos cinco anos.


@@@@@CDesovada

Os seis discos físicos que me procuraram e o único digital que tive tempo para me aplicar reafirmam que o Brasil musical ainda se garante. Cada um na sua, mais para interessantes do que corretos, a começar pelo mais pop.

@@@@@Pop e diversificado

“Concebido por acaso na Terra” (independente / patrocínio prefeitura de Juiz de Fora), estreia do grupo Blend 87, acena com diversidade e invenção. Pop (que adoro em sua, paradoxal, essência) virou um palavrão para tantos, daí seja melhor botar o nome do grupo no balaio do alternativo.

Lançado há cerca de quatro meses – buscas na rede levam a notícias postadas a partir de agosto -, pelo que me consta, o álbum continua ignorado pela grande mídia, mesmo que recheado por 11 canções com boas doses de achados musicais e poéticos. No texto de divulgação, somos informados de que o Blend 87 começou a se juntar em 2012 num tributo de diversas bandas de Juiz de Fora para celebrar os 50 anos da estreia discográfica dos Beatles. O que faz algum sentido. Pitadas dos reinventores do pop podem aparecer em alguns momentos (como em “De vagar” e “Numa esquina qualquer”), mas misturadas a outras referências, passando por Nordeste (no quase xote que abre o disco, “Possibilidade”, com participação do cantor Emmerson Nogueira), novo-baianismo (“Varanda”), clube-da-esquinismo (“Capim cidreira”), rocka-brega-billy (“Dois em um, um de dois”).

Suave, leve, às vezes no limite do inconsistente, mas quase sempre bem embalado e apresentado pelo quinteto formado por Bruna Marlière (voz), Renato da Lapa (violão e guitarra), Vinicius Steinbach (piano elétrico, teclados e escaleta), Douglas Poerner (baixo) e Nathan Itaborahy (bateria, percussões, voz e principal compositor, único autor em cinco das faixas e parceiro em outras duas).

Boa estreia, portanto, em produção e gravação de Nando Costa, que também ganhou embalagem gráfica diferenciada, com direito a kit para imprensa como nos velhos tempos da indústria do disco – criação de Ás de Copas, estúdio de arte.


@@@@@Violão sul-americano

Da mesma Juiz de Fora chega outra boa surpresa, também com o apoio municipal através da Lei de Incentivo à Cultura Murilo Mendes, “Vento Sul” (www.luisleite.art.br), do violonista, compositor e arranjador Luis Leite. Carioca que passou mais de uma década na Europa, onde se especializou em violão clássico em universidades de Siena (Itália) e Viena (Austria), nos últimos tempos, ele também é professor de violão na universidade federal da cidade mineira. Antes desse, lançou dois outros discos solo, “Mundo Urbano” e “Ostinato”, que não me lembro de ter notícia.

Agora, segundo conta num texto no encarte, procura passear pelo lirismo e pela sensibilidade da música da América do Sul. Choro, milonga, samba, ecos do jazz mineiro (a partir do Clube da Esquina) são percebidos através das dez faixas. Violão fluente, com eventuais e precisos solos, usado a serviço das composições e dos arranjos, que alternam formações de duos, trios ou quartetos. Violão e piano (Erika Ribeiro) no tema de abertura, “Santiago”; violão e clarinete (Giuliano Rosas) em “Flor da noite”; violão, vocalise (Tatiana Parra) e adufo (este, um tipo de pandeiro, tocado por Sérgio Krakowski) em “Veredas”; violão, vocalise (Lívia Nestrovski) e guitarra (Fred Ferreira) em “Noturna”; violão, Fender Rhodes (Ivo Senra) e bateria (Felipe Continentino) em “Pedra do Sal”; violão, flauta (Wolfgang Pusching), contrabaixo (Peter Herbert) e percussão (Luis Ribeiro) em “Caravan”. Esta última, homônima da que o trombonista Juan Tizol entregou a Duke Ellington, e a anterior estão entre as mais jazzísticas de “Vento Sul”, que vai continuar soprando forte em meus domínios.

@@@@@Mandocello brasileiro


Paulistano há mais de três décadas radicado na Europa, Joel Timoner deu as caras há cerca de dois anos com “Canções” (Maximus/Tratore). Agora, “Labirinto” (Circus Produções /www.circusproducoes.com.br) mostra que ele avançou tanto na arte de fazer canções quanto disco. Este, novamente produzido por Swami Jr., que tocou baixo e violão de 7 cordas e assinou os arranjos. Um quarteto formado por Joe (voz e mandocello), Swami, Tiago Costa (piano e Rhodes) e Sergio Reze (bateria) gravou as 12 faixas – seis delas reforçadas por uma orquestra de cordas.

Com oito cordas, da família do bandolim (seu instrumento original, entre 1977 e 83, quando integrou o grupo Xoro Roxo, que o levou à França), o mandocello foi o responsável pela volta de Timoner à música. Em 2007, ele ganhou um de presente e, após superar o desafio de dominar a técnica, passou a compor usando a nova ferramenta.

Em suas 12 faixas – todas de Timoner, sendo que uma delas, “Traigo pasión”, em parceria com Roberto Cordova -, o disco tem bons exemplos de que ele acertou. Passa por balada (“Louca luz”, “Cuidado”), samba (“Tá valendo”, “Hesitando na Avenida”, “De leve”), choro (“O Rio”), toada caipira (“Pra nós dois”), estas algumas das boas entradas para o “Labirinto”.


@@@@@Justiça atrasada

Mesmo com considerável atraso de cinco décadas, “Cabaré Star” (Saravá Discos) dá o devido crédito a Edy Star em “Procissão”, até então apenas atribuída a Gilberto Gil. Apesar de sempre admitir que usara as sugestões do colega e conterrâneo, só em 2017 Gil oficializou a parceria. Como Star (nascido Edivaldo Souza, em Juazeiro, em janeiro de 1938) conta em seu site, em 1965, num show que fez em Salvador antes de se mudar para São Paulo para trabalhar como administrador numa empresa multinacional, Gil apresentou a ainda incompleta “Procissão”. Semanas depois, Edy entregou num papel parte da letra que seria aproveitada e gravada no mesmo ano, mas assinada só por Gilberto Gil.

Produzido por Sérgio Fouad e Zeca Baleiro – este, em 2005, foi o responsável pela edição de “Cruel”, disco póstumo de Sérgio Sampaio -, “Cabaré Star” também faz justiça ao bom cantor que esse baiano alternativo sempre foi. Em 1971, ao lado de Sampaio, Miriam Batucada e Raul Seixas, participou do hoje cultuado “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta ‘Sessão das Dez’”, disco conceitual que foi boicotado pela então CBS (atual Sony). Três anos depois, lançou o que continuava como seu único álbum solo, “Sweet Edy” (Som Livre), também ignorado na época.

Raul Seixas e Sérgio Sampaio continuam como referências para a música de Edy, que, agora, volta cercado de convidados ilustres, em duetos com Angela Maria, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Zeca Baleiro, Felipe Catto e o finado Emílio Santiago.

@@@@@Além de Elis

Cantora e atriz que ganhou visibilidade no musical de Nelson Motta (e Patrícia Andrade) sobre Elis Regina, Laila Garin se arrisca a abrir seu disco de estreia com “As curvas da Estrada de Santos”. Afinal, é canção de Roberto e Erasmo que também ficou marcada pela gravação de Elis, mas, arranjo e interpretação fogem do óbvio. “Laila Garin e A Roda” (MP,B/Som Livre) tem sonoridade de banda, um quarteto, completado por Ricco Viana (guitarra e violão), Marcelo Müller (baixo) e Rick De La Torre (bateria), que, sem muito alarde, tocou por dois anos antes de entrar no estúdio.

O disco, produzido por A Roda – mais os “produtores musicais convidados” Nelson Motta e Rodrigo Campello -, é básico e direto, com apenas oito canções. Mais regravações de música bem rodadas – “Não me arrependo” (Caetano Veloso fase BandaCê), “Baioque” (Chico Buarque), “Na primeira manhã” (Alceu Valença) e “L’accordeoniste” (Michel Emmer)- e três novas: “Não me deixe” (Juliano Holanda), “Sonhos pintados de azul” (Dani Black) e “Flor da ilusão” (Renato Luciano). O suficiente para Laila e A Roda seguirem rodando.


@@@@@Resgaste


Violonista, compositor e cantor carioca que, nos anos 1970, trabalhou com Ivan Lins, Gonzaguinha e demais nomes do M.A.U. (Movimento Artístico Universitário), Sidney Mattos recupera um show que fez na Índia. A gravação é precária mas “Bombay / 1978 / ao vivo” (independente) vale pelo registro. Voz e violão que lembram do estilo de Gilberto Gil, em repertório que passa por Gil (“Mancada”), Milton Nascimento (e Fernando Brant em “Milagre dos Peixes”, e Ronaldo Bastos em “Cravo e canela”), Baden e Vinicius (“Berimbau”), Tom e Newton Mendonça (“Samba de uma nota só”) e temas do próprio, incluindo variações a partir de “Asa branca” que são “5 para as 2” e “Viv”.

@@@@@Com Emílio


Fechando com a audição digital da vez, aqui está um ótimo cantor, mas pouco reconhecido, mesmo com duas décadas de carreira e três bons álbuns anteriores. Tárcio Cardo volta com um belo tributo ao amigo Emílio Santiago em “Brasileiríssimo” (independente, nas plataformas digitais). É produção de Tárcio e Max Vianna, com arranjos divididos por um time de peso, Cristóvão Bastos, Gilson Peranzetta, João Donato, Jorjão Barreto e Roberto Menescal, seguindo por samba, samba-jazz, bossa nova. Fiel, portanto, à trilha do homenageado.

Também cercado de grandes instrumentistas – incluindo os arranjadores e gente como Paulinho Guitarra, Jessé Sadoc, Jaques Morelenbaum, Jamil Joanes, Zé Carlos Bigorna, Lula Galvão, Gabriel de Aquino e Marcel Powell -, Tárcio passa por canções lançadas por Emílio (como “Saigon”, “Logo agora” e “Flamboyant” – e clássicos da MPB que também estiveram no seu repertório, como “Canto de Ossanha”, “Bye, bye Brasil”, “Eu e a brisa” e “Bananeira”.

Crédito imagens: reproduções capas de discos; Luzes e Amaro (ACM)

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