Edy expõe teatralidade dionisíaca na trilha apimentada de ‘Cabaré Star’


Já perto dos 80 anos, a serem festejados em 10 de janeiro de 2018, o baiano Edivaldo Souza é de Juazeiro (BA), terra de João Gilberto. Só que é outra a bossa de Edy Star – como é conhecido no universo pop esse artista pioneiro pela criação e propagação de estética glam no Brasil claustrofóbico da primeira metade da década de 1970. Cabaré Star, primeiro álbum de Edy após o transgressor …Sweet Edy… (1974), chega à cena 43 anos após esse pioneiro disco glam e gay.


Chegar à cena é o termo adequado porque Cabaré Star – álbum idealizado por Zeca Baleiro para o selo Saravá Discos e produzido pelo próprio Baleiro com Sergio Fouad – é o veículo para a exposição da teatralidade de Edy, perfilado como “arauto dionisíaco” por Baleiro no texto escrito para o encarte da edição em CD do álbum. O título, Cabaré Star, também é ideal porque o disco tem esse clima de cabaré, com trilha sonora pautada por diversidade rítmica que vai do rock ao bolero, passando por blues e tango.


Mesmo sem ter os dotes vocais de uma Cida Moreira, digníssima saloon singer do Brasil, Edy dá conta de cantar as 13 músicas do disco. O toque do piano de Adriano Magoo explicita a atmosfera de cabaré no tango Dezessete vezes, contribuição de Zeca Baleiro para o repertório do Cabaré Star. A faixa abre com o canto a capella de trecho do Tango pra Tereza (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1975) na voz de ninguém menos do que Angela Maria, intérprete original do tema.

Cabaré Star, a propósito, tem estelar elenco de coadjuvantes. Com Ney Matogrosso, artista ao qual é linkado pela postura transgressora de ambos, Edy sorve o tempero ardente de Peba na pimenta (João do Vale, José Batista e Adelino Rivera, 1957), xote lançado há 60 anos. Com Filipe Catto (e não Felipe Catto, como grafado erroneamente na contracapa e no encarte da edição em CD de Cabaré Star), Edy transgride ao cantar rock da lavra inicial do cantor e compositor goiano Odair José, Perdi o medo, lançado pelo popular artista no primeiro álbum, de 1970. Com Caetano Veloso, de quem regrava o samba teatral Merda (1986), Edy amplifica o recado de Se o cantor calar (Zé Rodrix e Maria Lúcia Vianna, 1977), blues ao estilo de New Orleans (EUA) que fechou álbum lançado há 40 anos pelo cantor e compositor carioca Zé Rodrix (1947 – 2009).


Composição recente de Caetano, A bossa nova é foda (2012), inspirou Edy a fazer a música-resposta Rock’n’roll é fodaço, apresentada em Cabaré Star na batida de endiabrado rock’n’roll à moda do pioneiro Little Richard, também ele glam e gay. Edy é do rock, sobretudo pela atitude, como já deixa claro na abertura do Cabaré Star ao expor o brilho sangrento do rock Eu fiz o que pude (Lula Côrtes), gravado pelo autor em 1997 para disco lançado somente em 2006.


Caminhando sempre pelas margens, Edy saca até um blues inédito, O que será de nós?, da lavra do compositor capixaba Sérgio Sampaio (1947 – 1994), integrante do elenco do cultuado álbum Sociedade da Grã-Ordem Kavernista apresenta Sessão das 10 (CBS, 1971), gravado por Edy com Sampaio, com o conterrâneo Raul Seixas (1945 – 1989) e com a cantora e compositora paulista Miriam Batucada (1947 – 1994). Aliás, trecho de entrevista de Raul alocado na abertura da gravação ao vivo do blues-rock O crivo (Waldir Serrão e Maurício Almeida) fala desse álbum cult e contextualiza brevemente a figura andrógina de Edy Star na cena dos anos 1970.

Reverente aos companheiros desse passado fonográfico underground, Edy saúda Raul em versos do autoral Rock’n’roll é fodaço e, da lavra rara de Batucada, regrava o sincopado samba Você é seu melhor amigo (1974). E por falar em samba, Edy revolve a terra baiana e põe na roda, com a cadência da chula do Recôncavo, Procissão (1967), música de Gilberto Gil da qual Edy foi oficializado como coautor em 2008 por ter escrito em 1964 versos que inspiraram Gil a fazer a letra.


Dentro do Cabaré Star, a única faixa fora do clima é a abordagem suave do samba-canção-oração Ave Maria no Morro (Herivelto Martins, 1942), evocado por Edy em dueto com a voz aveludada do cantor Emílio Santiago (1946 – 2013). Soa fora da ordem porque Edy Star é do tesão, do frenesi, como explicita nos versos do abolerado tema A vida é um cabaré (Y’a de la rumba dans l’air) (Alain Souchon e Laurent Voulzy em versão em português de Edy Star e Zeca Baleiro). Nesse sentido, Cabaré Star cumpre a função de reverberar para novas gerações a teatralidade dionisíaca de Edy Star, antídoto contra a caretice dos tempos atuais. Bravo! (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: Edy Star em fotos de Gal Oppido. Capa do álbum Cabaré Star)

Deixe uma resposta