Ramil exercita a liberdade de ver o mundo pelo campo de ‘Satolep Fields’


“Tudo é sonho / Tudo é real / Não me canso de viver / Em Satolep Fields”, ressalta o cantor, compositor e músico gaúcho Vitor Ramil em Satolep Fields forever (Vitor Ramil), bela milonga que explicita já no título a evocação de música lançada há 50 anos pelo grupo inglês The Beatles, Strawberry Fields forever (John Lennon e Paul McCartney, 1967). A milonga integra o repertório autoral de Campos neutrais (Satolep Music), o recém-lançado 11º álbum do artista.


No musical mapa-múndi de Vitor Ramil, Satolep é a designação íntima e pessoal de Pelotas (RS), cidade natal do irmão de Kleiton Ramil e Kledir Ramil. Satolep é, no universo particular de Vitor, o quintal do qual ele vê e interpreta o mundo. Com título que se refere ao tratado de Santo Ildefonso, assinado em 1777 por Portugal e Espanha para delimitar área neutra nos domínios dos reinos destes países na América meridional, o álbum Campos neutrais expande a visão de Ramil com inspirada safra de 15 canções, sendo 13 escritas em português, uma em inglês e outra em espanhol.


Em sentido mais amplo e nobre, o significado de Campos neutrais pode simbolizar ideia de liberdade, de expansão de fronteiras geográficas, existenciais e musicais. “Queimem os navios / … / Soquem o vazio / … / Façam a revolução / … / Movam, desalinhem, desencaixem”, conclama Ramil nos versos de Palavra desordem (Vitor Ramil), uma das músicas que ganham formato orquestral neste disco produzido pelo próprio Vitor Ramil e lançado simultaneamente com o songbook também intitulado Campos neutrais, no qual o leitor encontra letras, partituras e tablaturas das músicas (as letras também estão reproduzidas no luxuoso encarte da edição em CD do álbum).


Recorrente na formatação do repertório, o toque dos metais do Quinteto Porto Alegre – orquestrados por Vagner Cunha – emoldura com inusual aparato sinfônico músicas como Contraposto, tema composto por Ramil em parceria com o paraense Joãozinho Gomes que se insinua timidamente como samba na gravação feita com a adição da voz do cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro, autor da poética letra de Labirinto, escrita originalmente em inglês, mas vertida por Baleiro para o português com a ajuda de Ramil, criador solitário da melodia. Samba mesmo, evidenciado de forma explícita nos caminhos rítmicos da melodia cantada a capella por Gutcha Ramil (sobrinha de Vitor) é Se eu fosse alguém (Cantiga). A melodia foi criada por Vitor a partir de versos do do poeta português António Botto (1897 – 1959).

Arranjos, ritmos e conceitos à parte, Campos neutrais se impõe como (mais) um grande álbum de Vitor Ramil, certamente o mais ambicioso do ponto de vista poético e musical, talvez o melhor título de discografia iniciada em 1981. Após álbum de tom retrospectivo em que o artista reciclou o próprio cancioneiro autoral, Foi no mês que vem (2013), o compositor renova repertório com a habitual inspiração. Músicas como a milonga Duerme, Montevideo (Vitor Ramil) se encontram entre as criações mais acalentadoras deste compositor que flerta com os países vizinhos da universal Satolep.

Não por acaso, a música que batiza o álbum – Campos neutrais, na qual o cantor exercita o agudo da voz no refrão que repete o título da música – foi arranjada com sons de instrumentos percussivos da Bahia e da Argentina (coube ao músico argentino Santiago Vazquez tocar toda a percussão do disco), em belo exemplo do livre trânsito de Campos neutrais pelas fronteiras musicais do universo pop.


Dentro dessa liberdade artística exercida com grande sofisticação em Campos neutrais, Ramil se permitiu escrever versões para músicas de compositores de idiomas e universos musicais distintos do Brasil. Do bardo norte-americano Bob Dylan, ele recorreu a Sara, composição de 1976 – lançada por Dylan no álbum Desire – que virou Ana na versão de Ramil sem perder o sentido de ser exaltação à esposa do poeta (já a filha é a musa da inspiração de Isabel, uma das oito canções da lavra solitária de Ramil).

Do galego Xöel Lopez, Ramil abordou Tierra, canção de inebriante beleza intitulada Terra na versão em português. Essa habilidade do compositor para trazer compositores de outros países ou estados para o próprio universo particular solidifica a unidade do álbum Campos neutrais. É nessa correnteza que emerge Olho d’água, água d’olho, música do qual o arretado paraibano Chico César é parceiro na composição (assinando a melodia, em perfeita simbiose com o estilo de Ramil, autor da letra) e convidado da gravação.


Sem perder o pique poético, o disco apresenta Stradivarius (música feita por Ramil a partir de versos de poema da pelotense Angélica Freitas), Angel station (com letra em inglês, até pelo fato de ter sido escrita em Londres) e Lado montaña, lado mar (Vitor Ramil), a música em espanhol de um disco de origem sulista, mas de olhar planetário que foca com carinho a produção musical de língua hispânica dos países vizinhos, em visão recorrente na obra do artista.


Com qualidade técnica exemplar, mérito do engenheiro de som Moogie Canazio, o álbum Campos neutrais vai além da estética do frio delineada por Vitor Ramil ao longo de obra construída desde o raiar da década de 1980. O disco mostra um músico no exercício pleno da liberdade criativa, expondo o mundo a partir do campo de visão da Satolep fields natal. (Cotação: * * * * *)


(Créditos das imagens: Vitor Ramil em fotos de divulgação de Marcelo Soares. Capas do álbum e do songbook Campos neutrais)

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