Amelinha aciona a usina de sonhos que moveu a vida e obra de Belchior


Lançado há 40 anos, o primeiro álbum de Amelinha, Flor da paisagem (1977), chegou ao mercado fonográfico sem nenhuma composição de Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017) entre as 11 músicas de repertório que incluía temas de autoria de compositores conterrâneos da cantora cearense como Ednardo e Raimundo Fagner. No entanto, Belchior já fazia parte da vida de Amelinha desde os anos 1960, década em que se conheceram e conviveram na efervescente cena cultural de Fortaleza (CE). A partir da década de 1970, ambos seguiram caminhos paralelos que convergiram novamente há 15 anos com a gravação e lançamento do álbum Pessoal do Ceará (2002), feito por Amelinha e Belchior com Ednardo com título que aludia ao coletivo cearense projetado em 1973.


Independentemente de eventuais convergências profissionais, o afeto que uniu Amelinha e Belchior legitima o lançamento do tributo fonográfico De primeira grandeza – As canções de Belchior (Deck), disco idealizado pelo produtor Thiago Marques Luiz no calor da emoção provocada com a notícia da definitiva saída de cena de Belchior, em 30 de abril. Gravado ao vivo em quatro dias de agosto deste ano de 2017, em estúdio situado na interiorana cidade paulista de Piracaia (SP), o 17º álbum de Amelinha acerta sobretudo quando ilumina títulos obscuros do cancioneiro de Belchior.


Grande achado do repertório, Princesa do meu lugar (1980) – música que batizou álbum da cantora Guadalupe e que nunca foi gravada por Belchior – fecha o disco em instante de grande beleza, em delicado clima rural e com o toque de viola. A balada Incêndio (Belchior e Petrúcio Maia, 1980) também sobressai como uma das faixas mais inspiradas do disco gravado com a banda formada pelos músicos Estevan Sincovitz (guitarra, violões, baixo e bandolim), Caio Lopes (bateria), Fabá Jimenez (guitarra e violão) e Ricardo Prado (piano acústico, Rhodes, mellotron, baixo, acordeom e viola).

Os arranjos de criação coletiva embutem toques charmosos como os timbres espaciais ouvidos ao fim de Passeio (Belchior, 1974), no verso que menciona fuga no disco voador. A música foi gravada com a devida leveza sugerida pela letra dessa composição lançada no primeiro álbum de Belchior. O arranjo (in)tenso e elétrico de Na hora do almoço (Belchior, 1971) valoriza bastante a lembrança dessa composição que deu o primeiro impulso à carreira de Belchior em festival de 1971 e que é regravada por Amelinha com sagaz citação de versos poéticos de Canteiros (Raimundo Fagner com poema de Cecília Meirelles, 1972). Amelinha e banda também refazem Comentário a respeito de John (Belchior, 1979) com propriedade, indo além da correção que pauta Alucinação (Belchior, 1976).


Poeticamente, o cancioneiro de Belchior versa principalmente sobre o choque existencial do imigrante na eletricidade ofuscante das grandes cidades. Nesse sentido, Amelinha dilui o desespero árido e cortante de A palo seco (Belchior, 1973) e se desvia da melancolia que conduz o navegar magoado de Mucuripe (Belchior e Raimundo Fagner, 1972). Exposição poética da automação das emoções urbanas na selva das cidades, Paralelas (Belchior, 1975) ganha registro que seduziria mais se o arranjo fosse mais radical. Até porque é difícil superar a primeira gravação da música, lançada pela cantora Vanusa no auge artístico e vocal.


Música que batiza o disco e que Belchior sempre quis ouvir na voz de Amelinha, como a cantora conta em texto reproduzido no encarte da edição em CD, De primeira grandeza (Belchior, 1987) aponta na letra o equilíbrio de forças masculinas e femininas, mas a música em si não é das mais inspiradas da lavra do compositor cearense.


Em que pesem as ressalvas, De primeira grandeza – o disco – mantém a carreira de Amelinha nos trilhos para os quais voltou há seis anos com o lançamento do CD Janelas do Brasil (2011), também produzido por Thiago Marques Luiz. No todo, o álbum resulta elegante, a cantora (de atuais 67 anos) continua com a voz em forma e o repertório alinha canções de um Belchior de status já quase mitológico, acionando a usina de sonhos que moveu a vida e a obra do compositor na década de 1970 e, com menor força, nos anos 1980. E, afinal, se existe uma cantora com autoridade para celebrar o cancioneiro do mito conterrâneo, essa cantora é Amélia Cláudia Garcia Collares Bucaretchi, grande nome da musical nação nordestina. (Cotação: * * * 1/2)


(Créditos das imagens: capa do álbum De primeira grandeza – As canções de Belchior. Amelinha em fotos de Murilo Alvesso)

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