Estamos à deriva no Rio de Janeiro

Igreja de São Francisco de Paula - Largo de São Francisco, s/nº - Centro - Tels. +55 21 2509-0068 / 2509-0069 / 2509-0070 - Visitação: Seg-Sex, 9-16h30. Sua construção foi concluída em 1801. A igreja reflete a tradicional arquitetura portuguesa, com duas torres com bases quadradas, nave retangular com corredores laterais, capela-mor ladeada de sacristia e capela privativa.
A cidade está simplesmente à deriva. Sempre que chego ao Largo de São Francisco de Paula, no centro histórico do Rio de Janeiro, sinto uma vontade louca de chorar.

Fui diretora do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) de 1994 ao final de 1997, hoje convivendo com o Instituto de História criado na década de 2010. Em 1971, o IFCS foi forçado a ocupar uma construção centenária, cujos alicerces haviam sido erigidos no final do século XVIII para ser a catedral da cidade. O prédio abrigou a Academia Real Militar de Engenharia desde 1810, de onde nasceu a Escola Polytechnica do Rio de Janeiro, posteriormente chamada de Escola Nacional de Engenharia.

O largo sofreu muitas transformações assim como o prédio, desde suas fundações até hoje, cercado de grades. Nos idos de 1990, quando por quatro anos dirigi a faculdade, havia uma parceria produtiva entre o subprefeito do centro, meu amigo Augusto Ivan Freitas Pinheiro e a administradora regional Olga Bronstein. Passávamos horas no meu gabinete ou na praça imaginando as benfeitorias e lutando para que o ambiente fosse mais agradável, e a beleza descrita em romances e contos de Machado de Assis aparecesse com mais força.

Largo de São Francisco, no Rio, ocupado por barracas


É verdade que hoje a praça ou largo com a imponente estátua de José Bonifácio ainda está lá, porque houve época em que se havia transformado em um imenso estacionamento.

Mas quanta saudade de Augusto Ivan, o criador do corredor cultural! Quanta saudade de Olga e sua risada. Quanta saudade de Regis Bonelli que me levou ao BNDES para conversar com Sergio Besserman Viana. Um dos diretores do banco, responsável pelo setor de apoio a restauro de bens tombados à época, Sérgio que ajudou a restaurar as fachadas do prédio em parceria com o Iphan, o Inepac e o Departamento Geral de Patrimônio Cultural, órgão municipal de patrimônio. Isso aconteceu no tempo do governo de Luiz Paulo Conde que tanto fez pela nossa cidade. O dia em que assinamos o convênio para o restauro foi uma festa.

Fizemos um trabalho minucioso. Levantamos a planta das fachadas que não existiam mais e procuramos, com Glauco Campelo presidente do IPHAN e sua equipe, a melhor maneira de fazer o restauro. Em um ano as fachadas estavam lindas, as janelas consertadas e pintadas e o frontispício, a parte mais antiga da edificação imponente, totalmente em pedra de cantaria, brilhando depois de lavadas com jatos d’água como mandava o manual do Iphan.

Depois de vinte anos do cuidadoso restauro, as pareces estão pichadas, e há um verdadeiro acampamento de sem tetos encostado nas grades que protegeram o edifício. Instalaram tendas de plástico preto presas às grades e suspeita-se até de que possa haver um certo comércio e uso de drogas. Mas quem atravessa essa triste realidade carioca e entra no IFCS fica encantado com o esmero com que foi reconstruído o pátio interno, a biblioteca e os andares que hoje abrigam dois importantes institutos de ensino e pesquisa. O visitante pode usufruir do ambiente acadêmico de primeira linha com estudantes de todas as classes sociais e professores que, além de dar aula, pesquisam temas variados em história, filosofia e ciências sociais. Largo de São Francisco, no Rio, ocupado por barracas


O mesmo se pode dizer da Igreja de São Francisco de Paula, no mesmo largo à esquerda de quem olha para o prédio do IFCS. Atravessando-se a rua em frente à escadaria da igreja onde centenas de motocicletas estacionam durante o dia, desrespeitando o prédio tombado, vê-se uma dos mais belos templos católicos do centro histórico do Rio de Janeiro. Sua construção foi iniciada em 1759 e concluída em 1801, por iniciativa da Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula. O altar-mor é obra de mestre Valentim, assim como a capela de Nossa Senhora da Vitória.

Essas duas edificações fazem parte da história da cidade e, hoje. tudo em volta me faz pensar no pouco valor que damos à nossa vida carioca. Até o comércio local tão famoso no século XIX e início do século XX parece estar quase morto.

Tudo isso me entristece, mas que devaneio é esse? Afinal, o momento que atravessamos é um dos mais trágicos no que tange à atuação das autoridades competentes pelo bem comum, pela ciência e pela educação. Como conseguiram deixar sem salário aposentados, pensionistas e professores do Estado do Rio de Janeiro? Que pouca atenção nossos governantes estão dando à ciência cortando fundos fundamentais para o desenvolvimento científico! E o que fazem pela população pobre que não tem onde morar?

Convido todos os meus leitores a passar pelo Largo de São Francisco e talvez imaginar alguma forma de preservar nossa história e ajudar a população de rua totalmente esquecida.

Aproveito para convidar também aos que lerem este post para a 3ª edição da Marcha pela Ciência no Rio de Janeiro que será realizada no dia 11 de novembro, às 15:30h, na praça Mauá, bem em frente ao Museu do Amanhã.

(FOTO NO TOPO: Igreja de São Francisco de Paula – CRÉDITO: Alexandre Macieira/Riotur FOTO NO MEIO DO TEXTO: Barracas no Largo de São Francisco – CRÉDITO: Fotos Cesar Gordon)

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