Primavera nos Dentes realça o doce e o amargo do grupo Secos & Molhados


Charles Gavin poderia ter ficado sentado no trono de baterista do grupo Titãs esperando a morte artística chegar. Mas soube abrir mão do ouro de tolo e saiu da banda paulistana em fevereiro de 2010 para se dedicar a outros trabalhos. O retorno ao universo pop como músico foi delineado em 2016, ano em que Gavin formou banda com os músicos Felipe Ventura (violino e guitarra), Paulo Rafael (guitarra) e Pedro Coelho (baixo) e começou a tocar o repertório dos dois fundamentais primeiros álbuns de estúdio do trio Secos & Molhados. Nascia o projeto Primavera nos Dentes. Com a voz de Duda Brack, cantora gaúcha de vivência carioca que lançou um dos melhores e mais urgentes discos de 2015, É, o projeto virou (grande) disco neste ano de 2017 por iniciativa do produtor Rafael Ramos.


Em turnê nacional neste segundo semestre, o show chegou aos palcos da cidade do Rio de Janeiro (RJ) na noite de terça-feira, 31 de outubro, em apresentação que lotou a arena do Sesc Copacabana. E o que se viu na arena circular foi um show ainda melhor do que o álbum lançado somente no formato de LP e em edição digital.


Com doses bem calculadas de poesia e acidez, as letras das músicas dos Secos & Molhados continuam atuais, incisivas. Mas era preciso dar nova forma às músicas para Primavera nos Dentes não soar como clone – ou, pior, um pastiche – do trio formado em 1971 por João Ricardo com Ney Matogrosso e Gerson Conrad na cena alternativa da cidade de São Paulo.

Seguindo o molde do disco produzido por Rafael Ramos, o show em essência deu o peso do rock ao repertório do Secos & Molhados – caminho já evidenciado na segunda música do roteiro, Angústia (João Ricardo e João Apolinário, 1974), e repisado em Delírio (Gerson Conrad e Paulo Mendonça, 1974) e, já no fim, no tom hard de O hierofante (João Ricardo sobre poema de Oswaldo Andrade, 1974).


Como Gavin é exímio baterista que domina o idioma do rock e como o Primavera nos Dentes traz na formação um guitar hero, Paulo Rafael, a transposição das músicas para o universo do rock – entendendo-se rock no sentido mais amplo que alia som à atitude – resulta competente. Só que tocar ao vivo o repertório dos álbuns Secos & Molhados (1973) e Secos & Molhados (1974) era tarefa arriscada porque era preciso oferecer performance à altura da atuação transgressora do vocalista Ney Matogrosso nos palcos. E é aí que Duda Brack contribuiu decisivamente para o êxito estrondoso do show. Além dos dotes vocais, Brack é cantora de grande presença cênica. Tem magnetismo e canta também com o corpo, em movimentos ora teatrais, ora ritualísticos.


Na estreia carioca do show Primavera nos Dentes, a cantora capturou a atenção da plateia desde que apareceu na arena do Sesc Copacabana como uma gata arisca, pronta para fazer jorrar a poesia altiva de Sangue latino (João Ricardo e Paulo Mendonça, 1973). Do início ao fim do show, Brack manteve a alta tensão de repertório que pescou pérolas como Fala (João Ricardo e Luhli, 1973), Não, não digas nada (João Ricardo sobre poema de Fernando Pessoa, 1974) – música do roteiro que não está entre as 11 composições do disco – e Tercer mundo (João Ricardo sobre poema de Julio Cortázar, 1974). Cantora magnética, de visceral potência vocal, Brack precisa somente ter mais atenção com a dicção. Nem sempre foi possível entender o que dizia e/ou cantava, sobretudo quando apresentou a banda.


Alternando-se entre o violino e a guitarra, Pedro Ventura – músico da banda Baleia – contribuiu para evocar sons ciganos ou mesmo árabes (quando o toque do violino evocava o som de uma rabeca). No baixo, Pedro Coelho armou com Gavin a cama para que todos deitassem e rolassem na apresentação de roteiro que incluiu O doce e o amargo (João Ricardo e Paulo Mendonça, 1974), um dos pontos mais altos do show. Poeticamente, a propósito, o cancioneiro do Secos & Molhados diz coisas amargas com doçura. Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad sobre poema de Vinicius de Moraes, 1973), que desabrochou climática no show, exemplificou o tom agridoce de parte do repertório.


Até O vira (João Ricardo e Luhli, 1973), única música mais fluida da seleção do Primavera nos Dentes, ganhou corpo no show pela presença performática de Duda Brack em número que irradiou luzes de globo espelhado. Já O patrão nosso de cada dia (João Ricardo, 1973) promoveu instante de beleza quando os vocais dos músicos da banda se harmonizaram ao fim do número.


Como o repertório do Secos & Molhados denuncia desigualdades e opressões, além de defender expressões libertárias, a inclusão no roteiro de Tem gente com fome (João Ricardo e Solano Trindade, 1979) – música que a censura impediu o Secos & Molhados de cantar e lançar em disco – soou natural. Pedido de Ney Matogrosso, como contou Duda Brack em cena, a adição de Tem gente com fome foi o pretexto para reprodução de fala do sociólogo Herbert de Souza (1935 – 1997), o Betinho.

A fala sobre a responsabilidade de cada cidadão sobre a tragédia da fome também se encaixou bem em roteiro que extrapolou o repertório do disco em músicas como El rey ((João Ricardo e Gerson Conrad, 1973), Flores astrais (João Ricardo e João Apolinário, 1974) e Amor (João Ricardo e João Apolinário, 1974), as duas últimas alocadas no bis. Até porque fazer um show em 2017 com o repertório inicial do Secos & Molhados, realçando o doce e o amargo do grupo, é em última instância um necessário ato político. (Cotação: * * * * 1/2)


Eis o roteiro seguido em 31 de outubro de 2017 por Charles Gavin, Duda Brack, Felipe Ventura, Paulo Rafael e Pedro Coelho na estreia carioca do show Primavera nos Dentes na arena do Sesc Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro (RJ):


1. Sangue latino (João Ricardo e Paulo Mendonça, 1973)

2. Angústia (João Ricardo e João Apolinário, 1974)

3. Fala (João Ricardo e Luhli, 1973)

4. Não, não digas nada (João Ricardo sobre poema de Fernando Pessoa, 1974)

5. Tercer mundo (João Ricardo sobre poema de Julio Cortázar, 1974)

6. O doce e o amargo (João Ricardo e Paulo Mendonça, 1974)

7. Delírio (Gerson Conrad e Paulo Mendonça, 1974)

8. O patrão nosso de cada dia (João Ricardo, 1973)

9. O vira (João Ricardo e Luhli, 1973)

10. Primavera nos dentes (João Ricardo e João Apolinário, 1973)

11. Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad sobre poema de Vinicius de Moraes, 1973)

12. El rey (João Ricardo e Gerson Conrad, 1973)

13. Tem gente com fome (João Ricardo e Solano Trindade, 1979)

14. O hierofante (João Ricardo sobre poema de Oswaldo Andrade, 1974)

Bis:

15. Flores astrais (João Ricardo e João Apolinário, 1974)

16. Amor (João Ricardo e João Apolinário, 1974)


(Créditos das imagens: Primavera nos Dentes em 31 de outubro de 2017 na Arena do Sesc Copacabana em fotos de Bruno Coqueiro)

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