Já sem identidade, Marcia Castro se joga na pista baiana ‘bass’ de ‘Treta’


Cantora baiana que nunca transitou pela via industrializada da música rotulada como axé music, Marcia Castro despontou há dez anos de forma promissora com a edição de álbum independente, Pecadinho (2007), que evidenciou a verve e a forte personalidade da intérprete. Ao longo dessa última década, contudo, essa personalidade foi sendo diluída em discos menos imponentes. No segundo álbum, De pés no chão (2012), o canto de Castro já empalideceu diante de produção pautada por excessos. No terceiro álbum, Das coisas que surgem (2014), disco em que a cantora se apresentou como compositora de fôlego curto, o canto ficou mais esmaecido por conta da produção sem cor de Gui Amabis.


Treta – quarto álbum da artista, lançado pela gravadora Joia Moderna com capa criada por Giovanni Bianco a partir de foto de Gui Paganini – completa o processo de diluição da personalidade artística da cantora. Gravado entre Salvador (BA) e São Paulo (SP), sob direção artística de Marcos Vaz, Treta é álbum moldado com batidas eletrônicas que joga Castro numa pista quente, baiana, em que as paixões carnais são o mote de repertório pautado por sensualidade artificial, como se a quentura fosse produzida por micro-ondas.


Esse cancioneiro resulta pouco inspirado em músicas como Chave de cadeia (Marcia Castro, Marcos Vaz e Jurema Paes), mas também alinha acertos. Com tempero saboroso realçado pelo arranjo de Ruxell, Baba no quiabo (Ava Rocha, Gui Calzavara, Mariana de Moraes, Luciano Salvador Bahia e Marcia Castro) é apimentado funk à moda baiana que poderia ter sido gravado por Anitta se a musa do pop funk carioca tivesse vivido entre as ladeiras do Pelô. Também com pulsão inebriante, a música-título Treta (Bruno Capinan) soa como mix da levada do grupo É o Tchan com o pancadão da BaianaSystem (mas evidentemente sem a força social e política da banda de Russo Passapusso). Essa mistura inusitada também é evocada, de forma mais fluida, em Desce bum (Rafa Dias, Oz, Chibatinha e Raoni).


A questão de Treta, o álbum, é que ele mostra uma cantora sem coerência, assumindo personalidades de outras cantoras. A parte em inglês de Vulgar (Márcia Castro) – música bilíngue ouvida também em remix ao fim do disco – poderia estar na voz de qualquer cantora que disputa o banalizado pop em voga no mainstream do mercado fonográfico norte-americano. A fórmula é seguida tão à risca em Vulgar que há até a (já protocolar) conexão com o universo do hip hop, no caso com os versos em inglês ouvidos na voz do jamaicano Rap Wolf.


Formatado basicamente com os synths e beats do produtor e arranjador Marcos Vaz, além do toque da guitarra de Juninho Costa, Treta soa paradoxal no sentido de que apresenta som moldado para o mercadão pop nativo, com a dose de trivialidade exigida por esse gênero, em disco editado por gravadora de alcance indie. Referências da baianidade nagô, como a percussão tocada por Gustavo Di Dalva em Sinto desejo (César Lacerda), são recorrentes no disco entre batidas de funk e kuduro. Não por acaso, Rafael Dias – mentor da Àttooxxá, banda soteropolitana que vem cruzando batidas eletrônicas com ritmos como o pagode baiano em movimento musical rotulado como Bahia Bass – é nome também recorrente como compositor do repertório de Treta. Rafa Dias, como é conhecido no universo musical, é coautor de músicas altamente eletrificadas como Tensão (Marcia Castro, Rafa Dias, Oz, Chibatinha e Raoni).


De todo modo, paira a sensação de que, mais uma vez, pelo terceiro disco consecutivo, o canto fervido de Marcia Castro ficou em segundo plano – no caso, entre sobressalentes beats eletrônicos. Quando a letra de uma música vai além do tatibitate dos versos de Ela é pan (Marcia Castro, Marcos Vaz, Rafa Dias, Oz e Chibatinha), caso de Boneca (Marcia Castro e Luciano Salvador Bahia), o canto de Marcia não consegue expor todo o sentido e nuances dos versos porque a voz está ajustada à temperatura-padrão da pista.


“Cada disco brota de um jeito”, parece justificar Marcia Castro na primeira frase do longo texto de agradecimento publicado no encarte da edição em CD de Treta, álbum que se conecta com o movimento Bahia Bass e que tem o mérito de propagar liberdade sexual (e, portanto, política) em tempos de tolhimentos de desejos. Pode até ser. De qualquer jeito, como o single Noites anormais (Rafa Dias) já sinalizara em agosto, Marcia Castro até está antenada com os atuais sons do Brasil, mas parece ter perdido definitivamente a identidade como cantora ao se jogar com baianidade eletrônica na pista artificialmente sexualizada do álbum Treta. (Cotação: * * 1/2)


(Crédito da imagem: Marcia Castro em fotos de Gui Paganini. Capa do álbum Treta. Arte de Giovanni Bianco)

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