Tim Bernardes orquestra sublime sinfonia da dor no álbum ‘Recomeçar’


Quem ouviu o terceiro e último álbum do trio paulistano O Terno, Melhor do que parece (2016), se deparou com a excelência pop de disco feliz que atestou o crescimento de Tim Bernardes como compositor. A grandeza de Recomeçar, primeiro álbum solo do vocalista e principal compositor d’O Terno, somente vai surpreender quem se recusou a perceber a evolução do artista paulistano por preconceito ou por pura ignorância. Bernardes apresenta um dos melhores discos deste ano de 2017 (e da década), mas na contramão da felicidade extrovertida do melhor álbum do Terno.


Diretor musical, produtor, arranjador e único compositor de Recomeçar, álbum que ganha edição em CD pelo selo Risco no fim deste mês de outubro de 2017, Bernardes orquestra sublime sinfonia da dor com elevação poética. “Eu quis mudar / E isso implicava em deixar para trás / Meu chão, meu conforto, o certo, a paz / Eu fui a procura de mais”, resume o artista nos versos confessionais de Tanto faz, uma das 12 músicas autorais alocadas nas 13 faixas do disco. A música-título Recomeçar é ouvida na celestial abertura instrumental e se repete no fecho do álbum. “O que começa terá / Seu final”, alinhava Bernardes em versos de Recomeçar, a canção.


Sem chão, sem conforto, sem paz, sem certezas, o artista apresenta safra de canções pautadas por angústias, tormentas, desilusões e desgastes emocionais. A tristeza é senhora na composição deste repertório que se engrandece no encadeamento de Recomeçar. “Dói no fundo, quando / Vai passar?”, pergunta o artista no desespero de Calma, uma dessas canções.


O poster-encarte da edição em CD de Recomeçar traduz visualmente esse sentimento de perda total que perpassa o disco. Metade do espaço preto é ocupada pelas reproduções das 12 letras e da ficha técnica de cada faixa. A outra metade nada traz, além do espaço vazio, como se alma do artista vagasse na escuridão. O falsete do canto de Bernardes corta a carne feito faca ao longo das músicas arranjadas em tom orquestral. Violões, harpas, violinos e sopros moldam a doída sinfonia de sentimentos embutidos em canções como a resignada Talvez (“Talvez não seja para mim / O que eu quero não vai vir / E eu nunca vou chegar”).


Ao mesmo tempo em que se pautam pela grandiosidade orquestral, os arranjos preservam paradoxalmente nas canções um intimismo que faz de Recomeçar um disco absolutamente pessoal. Mas universal por tratar de emoções, sentimentos e dores comuns a todos. Primeiro single do álbum, lançado em 29 de agosto, Tanto faz fez supor sentido político que se dilui no conjunto de canções de Recomeçar, disco que versa sobre relacionamentos em âmbito privado no tom sinfônico que embute referências da música folk norte-americana.


Em última instância, é como se o compositor-personagem de Recomeçar se remoesse da dor do abandono, da ruptura. O que o título e os sete versos de Ela não vai mais voltar resumem de forma exemplar. “Ela nunca sentiu / Metade do que eu senti / Eu tentei, me matei / Mas eu nunca consigo”, reiteram versos de outra canção, Era o fim. Sujeito recorrente no disco, ela é o alvo inominado da paixão, o objeto do perfil da canção intitulada justamente Ela, cuja letra versa sobre mulher anestesiada por não suportar as emoções da vida.


Nessa espiral de dor de amor perdido e/ou represado, buscar a si mesmo pode ser a solução nem sempre encontrada de imediato. “Se quem sabe eu aceitar / Quem eu sou sem censurar / Toda minha parte má / Poderia até te dar / Amor, amor”, pondera Bernardes em Pouco a pouco, canção sobre a procura do autoconhecimento. As vozes dobradas do refrão colaboram para o arranjo atingir o céu. Na sequência, Não mostra que, por trás de todo o aparato sinfônico, há um compositor em estado de graça, há canções de verdade que se sustentam no toque do violão do artista (ainda que também haja em Não os recorrentes violinos de Felipe Pacheco Ventura).


Nessa sinfonia sublime, cordas, vozes, sopros e silêncios parecem ter sido milimetricamente calculados sem, contudo, deixar Recomeçar soar com disco cerebral. No permanente embate entre cabeça e coração, assunto de Incalculável, o disco expõe um artista à flor da pele. E, se há dor, é porque a vida não é filme, como reconhecem os versos de As histórias do cinema, peça fundamental dessa sinfonia de rara beleza que sobressai no universo pop brasileiro, elevando o nome de Tim Bernardes como um dos artistas mais importantes da atual geração. (Cotação: * * * * *)


(Créditos das imagens: Tim Bernardes em fotos de Marco Lafer. Capa do álbum Recomeçar)

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