Grooveria aciona o suingue do ‘black’ samba no álbum ‘Moto contínuo’


Somente a primeira das dez faixas do terceiro álbum do coletivo paulistano Grooveria – o tema instrumental Funky nite (Tuto Ferraz) – já valeria a aquisição e/ou audição de Moto contínuo, disco lançado em edição independente com distribuição da Tratore. Trata-se de inebriante disco-funk que louva com maestria o arranjador Lincoln Olivetti (1954 – 2015), até por contar com o naipe de metais que tocava com o maestro fluminense na fase final da carreira do artista. Altair Mendes (trompete), Marlon Sette (trombone), Diogo Gomes (trompete) e José Carlos Bigorna (sax tenor) caem em suingue que evoca de fato o som de Olivetti.


“…Sem suingue não dá”, sentencia o pandeirista Jota Erre ao cantar verso de Sambou (Tuto Ferraz, Jessé Santo e Jota Erre), black samba alocado ao fim deste segundo álbum de estúdio da big-band capitaneada pelo compositor, baterista e arranjador paulistano Tuto Ferraz. Lançado oito anos após o CD/DVD Avenida Brasil (2009) e 12 após o seminal álbum #1 (2005), Moto contínuo é disco produzido, arranjado e mixado por Ferraz.


O groove nem soa original. Basta ouvir um funk como Alright (Tuto Ferraz) para perceber a assumida influência do balanço do grupo norte-americano Earth, Wind & Fire e do groove chic do guitarrista norte-americano Nile Rodgers. Mas é bom. Até porque a Grooveria põe a batida do samba na mistura de sabor brasileiro. O que justifica a presença manemolente de Martnália no disco. A cantora carioca é a solista vocal da abordagem do samba Jorge Maravilha (Chico Buarque, 1973), uma das três incursões feitas pela Grooveria no repertório da MPB em Moto contínuo.

Voz recorrente no disco, Fernanda Abreu canta o afro-samba Berimbau (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963) e a versão em português de Alright, Chapando no groove, cuja letra foi escrita por Abreu a convite de Tuto Ferraz, parceiro de música e vida dessa senhora sangue bom que gravou todos os backing-vocals do disco. Até Ponteio (Edu Lobo e José Carlos Capinam, 1967) entra na dança, mas soa menos natural no baile.


Feita com a voz macia de Ferraz, a gravação do sambalanço Eu quero ver (Tuto Ferraz, Jessé Santos e Jota Erre) sinaliza que a Grooveria pode até prescindir de reler standards da MPB em discos. Porque o groove é da pesada e valoriza o repertório autoral. Registrado em Moto contínuo com a voz diluidora de Rogê, o samba-funk Menina morena (Tuto Ferraz, Leonardo Mendes e Fernanda Abreu) garante o suingue e a animação do baile. Que ganha o toque da guitarra de Claudio Zoli em outro samba-funk, Vim (Tuto Ferraz, Jota Erra, Leonardo Mendes e Rick Dub).


Quando fica no ponto, a mistura de samba e black music é contagiante. “É pra dançar”, como ratifica Fernanda Abreu em verso-síntese de Chapando no groove. Nem precisava avisar. (Cotação: * * * 1/2)


(Crédito da imagem: Grooveria em foto de divulgação. Capa do álbum Moto contínuo. Foto de Tuto Ferraz)

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