Atuais, Paralamas reapresentam as armas em explosivo show no Rio


A discografia dos Paralamas do Sucesso pode ter oscilado a partir dos anos 2000, mas, no palco, o power trio carioca nunca perdeu a pegada. O show Sinais do sim confirma a força do grupo em cena. No show dessa turnê nacional que chegou à cidade natal do Rio de Janeiro (RJ) na noite de sábado, 28 de outubro de 2017, após passar por Curitiba (PR) e São Paulo (SP), Herbert Vianna (voz e guitarra), Bi Ribeiro (baixo) e João Barone (bateria) entrelaçam músicas do recém-lançado álbum de inéditas Sinais do sim (2017) com lados B da discografia e sucessos colecionados ao longo de carreira que já contabiliza 36 anos se tomado como ponto de partida a reunião no fim de 1981.


Show à parte, a iluminação (desenhada por Cristiano Vaz e Marcos Olívio) deu cores vivas a um show incrementado com projeções ao longo das 30 músicas do roteiro aberto com Sinais do sim (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 2017), a balada de pulsão roqueira que dá nome ao primeiro disco de inéditas da banda em oito anos. A partir da segunda música, Itaquaquecetuba (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 2017), entram o tecladista João Fera – no grupo desde 1986 como músico convidado – e a dupla metaleira formada por Bidu Cordeiro (trombone) e José Monteiro Jr. (saxofone). Embora não permaneça no palco o tempo todo, o trio de músicos convidados encorpa a potente massa sonora dos Paralamas.

Sinais do sim é show feito na pressão, do início ao fim, mesmo em baladas como Lanterna dos afogados (Herbert Vianna, 1989), adornada com solo de sax que arrancou aplausos da plateia que lotou a casa Vivo Rio. Para esse público, no entanto, o show começou a esquentar na terceira música, Meu erro (Herbert Vianna, 1984), revivida com o toque dos metais e recebida com euforia. Mas nem sempre Os Paralamas lançaram mão de sucessos, embora os principais estejam no roteiro. A balada A outra rota (Herbert Vianna, 1991) é lado B que dá ar de novidade ao repertório e sinaliza um provável registro audiovisual do show Sinais do sim em 2018.


Musicalmente, o trio continua poderoso, ostentando virtuosismo nem sempre comum no rock brasileiro. Evidenciada no reggae Sempre assim (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 2017), a largura do baixo de Bi Ribeiro embasa com segurança os arranjos. Repleto de nuances, o toque da bateria de João Barone é um pancadão que dá a devida pressão ao show. Já Herbert Vianna, mesmo passando longe do virtuosismo vocal, sempre se mostra eficaz como cantor e toca uma guitarra que recusa solos exibicionistas para atuar a serviço do show.


Por mais que eventuais músicas surtam efeito menor na plateia, caso de Viernes 3AM (Charly Garcia, 1979, em versão de Herbert Vianna, 1998), o roteiro soa coeso e expõe a coerência da obra do trio. Que soa especialmente atordoante e atual no bloco de músicas de consciência social e política mais aguçada. O calibre (Herbert Vianna, 2002) – a música mais relevante do trio após os anos 2000 – dispara artilharia que encontra eco na ideologia exposta em Selvagem (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 1986), acoplada no roteiro com O beco (Herbert Vianna e Bi Ribeiro, 1988) em medley explosivo com os petardos disparados pela bateria de Barone. Na sequência, o trio reapresenta mais uma arma poderosa para radiografar as tensões sociais do Brasil, em especial do Rio de Janeiro (RJ), cidade que abriga os Paralamas. Trata-se de abordagem do rap lusitano Medo do medo (Capicua e João Ruas, 2012), regravado pelo trio no álbum Sinais do sim. Somente esse bloco já valeria o show.


Fora da seara autoral do trio, além de Medo do medo, há o pop reggae A lhe esperar (Liminha e Arnaldo Antunes, 2009) e há Capitão de indústria (Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, 1971), música sobre a automação das emoções na selva de pedra que o trio regravou no álbum 9 luas (1996) e que reaviva no show na cadência recorrente do reggae que também conduz O amor não sabe esperar (Herbert Vianna, 1998). Nesse show de efeitos visuais, Caleidoscópio – balada lançada há 30 anos na voz da cantora Dulce Quental, em gravação feita para o álbum Voz azul (1987) – soa renovada em cena com arranjo que tangencia a forma de um blues-rock.


No fim, um naipe infalível de hits – Uma brasileira (Carlinhos Brown e Herbert Vianna, 1995), Ska (Herbert Vianna e Bi Ribeiro, 1984), Vital e sua moto (Herbert Vianna, 1983) e Alagados (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 1986) – faz a festa do público e arremata o show em clima apoteótico. No bis, iniciado com o tema instrumental Bundalelê (Herbert Vianna, 1987), a recente canção Teu olhar (Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 1987) funciona como anticlímax. Mas outra balada, Cuide bem do seu amor (Herbert Vianna, 2002), de refrão funcional, refaz a comunhão entre artista e plateia, preparando o clima para o verdadeiro gran finale do show, Óculos (Herbert Vianna, 1984).


Enfim, são poucas as bandas que ultrapassam 35 anos de vida com pegada e com capacidade de aglutinar público em torno de uma obra. Quando tocam nas capitais, e também fora delas, os Paralamas do Sucesso colhem os frutos de um longo caminho percorrido com coerência, honestidade e música boa. O show Sinais do sim indica que ainda há mais estrada pela frente. (Cotação: * * * *)


(Créditos das imagens: Os Paralamas do Sucesso na estreia carioca do show Sinais do sim em fotos de divulgação de Ricardo Nunes / Vivo Rio)

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