‘Manifesto tropicale’ de Selton foge do clichê com apátrida música pop


O título do quinto álbum do grupo ítalo-brasileiro Selton, Manifesto tropicale, faz supor um mergulho na brasilidade por essa banda criada em 2005 nas ruas de Barcelona (Espanha), radicada em Milão (Itália) desde 2007 e formada por quatro gaúchos originários de Porto Alegre (RS), cidade do Sul do Brasil.


De fato, há eco distante da Bossa Nova na introdução de Sampleando Devendra, canção cuja letra embute versos em português, e em Stella Rosa. Há também referências ao bairro carioca de Copacabana em Luna in Riviera, música de exuberante arquitetura pop. Há muito de Brasil na suave sonoridade eletroacústica de Avoar, tema com letra em português. E há a fluente deglutição eletrônica de lema antropofágico, Tupi or not Tupi, exposto já no título de uma das 10 músicas inéditas e autorais desse álbum produzido por Tommaso Colliva, lançado em luxuosa edição em CD pela filial italiana da gravadora Universal Music, e já disponibilizado nas plataformas digitais do Brasil.


Contudo, essas e outras referências do universo nacional não são suficientes para fazer de Manifesto tropicale um álbum brasileiro no tom ortodoxo do termo. Daniel Plentz (voz, bateria e mpc), Eduardo Stein Dechtiar (voz e baixo), Ramiro Levy (voz, guitarra e ukulele), Ricardo Fischmann (voz, teclados e guitarra) formam um grupo que vem se portando como cidadão do mundo. Sucessor de Banana à milanesa (2008), Selton (2010), Saudade (2013) e do consagrador Loreto Paradiso (2016), o álbum Manifesto tropicale apresenta boa música pop de linhagem apátrida, embora seja cantada majoritariamente em italiano e tenha sido gravado em Londres, na Inglaterra.


Terraferma já expõe na abertura do disco um padrão de excelência pop não raro alcançado por Selton. Com letra trilíngue que costura versos em inglês, em português e em italiano, a canção Bem devagar exemplifica bem a leveza que sustenta o pop por vezes indie de Selton. “Sou brasiliano ma parlo italiano, non so se son índio o son indie”, confunde, mais do que explica, verso jocoso da já mencionada Tupi or not Tupi.


Nessa geleia universal que molda o quarto álbum de inéditas da banda (o primeiro disco foi de covers), Lunedì cita Bahia, cachaça e México. Entre o flerte sessentista de Jael e o polimento radiofônico de Cuoricinici, Selton se desvia do clichê tropical e se confirma cidadão do mundo com trânsito livre entre as fronteiras do universo pop. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Manifesto tropicale, de Selton)

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