Ganjaman e Cabral azeitam pimenta pop de As Bahias e a Cozinha Mineira


Na capa do belo encarte da edição em CD de Bixa, segundo álbum da banda paulistana As Bahias e a Cozinha Mineira, a foto de banana de casca amarela, mas de cor rosa, sugere conotação sexual que está em sintonia com a postura das vocalistas e compositoras Assucena Assucena e Raquel Virgínia, líderes da banda, ambas trans. O próprio título do álbum, Bixa, já explicita a intenção de promover discussões sobre as polêmicas questões de gênero que vem mobilizando e dividindo a sociedade brasileira. Nesse sentido, Bixa é álbum político que amplia a discussão suscitada pelo antecessor Mulher (2015).


Com discurso apimentado em letras repletas de referências e alusões ao universo sexual, a bandeira da diversidade é hasteada sem deixar a música em segundo plano. Ao contrário. Bixa aprimora o tempero d’As Bahias e a Cozinha Mineira com os mestres-cucas Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, recrutados para produzir o disco e criar os arranjos de base das 10 músicas que compõem o repertório inédito e autoral do álbum editado pela YB Music com distribuição da Pommelo.


Para quem não liga os nomes ao som, Ganjaman e Cabral foram os responsáveis por formatar o rap de Criolo nos anos 2010. Mas o êxito de Bixa não deve ser creditado somente aos dois produtores musicais. Assucena Assucena e Raquel Virgínia são cantoras acima da média da cena indie nativa. Como compositoras, ambas ainda oscilam, mas, no todo, o cancioneiro de Bixa soa azeitado e pautado pela diversidade rítmica. Se A isca (Assucena Assucena) transita com sensualidade pelo universo do bolero, com toque de tango, Dama da night (Assucena Assucena) acaba jogada em apropriada pista de disco music.


“Sou diva, sou diva”, proclamam as vocalistas, com ares de deusas urbanas, na faixa que dialoga com o jogo de palavras armado no delicioso samba Pica pau (Assucena Assucena), interpretado com vocais que evocam intencionalmente o canto de Gal Costa, referência assumida de Assucena e Raquel. Mix (Raquel Virgínia) se banha na praia do reggae. Já Universo (Raquel Virgínia) roça tom celestial, com letra poética cantada em tom quase etéreo.


Álbum gravado sob direção artística dividida entre as vocalistas e o guitarrista da banda, Rafael Acerbi, Bixa ganha pulsão roqueira em Drama (Raquel Virgínia) com diálogos com o funk. Pilotando sintetizadores na medida certa, sem pesar a mão na batida eletrônica, Ganjaman e Cabral conseguem dar unidade a um repertório que se conecta mais pela postura libertária e pela ideologia sexual.


Mais coeso do que o álbum Mulher, até pelo fato de condensar as dez músicas em 32 minutos, Bixa nem sempre deixa clara a anunciada inspiração do álbum Bicho (1977), espécie de manifesto pop musical lançado há 40 anos por Caetano Veloso. O único elo talvez seja o fato de tanto Bicho como Bixa se enquadrarem no genérico rotulo pop.


No mais, se Bicho recebeu o injusto carimbo de disco alienado somente por propor a dança e um sentimento odara em momento de escuridão no Brasil, Bixa já surge politizado e afiado em outro momento em que forças obscurantistas querem tolher liberdades de gênero e expressão. Não é à toa que, na foto da contracapa do encarte do álbum, a foto de uma maça – símbolo do desejo – aparece espetada, sangrando. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Bixa, da banda As Bahias e a Cozinha Mineira. Assucena Assucena e Raquel Virgínia em foto de Gui Paganini)

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