Em busca da oposição perdida, em meio a estímulos mis

Apatia é o termo que melhor descreve a atitude de grande parte dos brasileiros diante da crise política-social-ética-etc que avança. Na terça-feira, véspera de mais uma vitória anunciada (e comprada, roubada) do presidente ilegítimo na Câmara dos Deputados, estávamos entre os gatos pingados que se reuniram na Candelária e caminharam até a Cinelândia. Cerca de mil, duas mil pessoas? Não sei, avaliações não foram divulgadas, mas, éramos poucos, e muitas caras conhecidas, incluindo artistas, alguns políticos de esquerda, raros estudantes… Ou seja, um nicho, sem conexão com a maioria silenciosa e desmobilizada. Perto do fim do ato, enquanto o bordão “inaceitável” era a senha para uma lista de injustiças serem lembradas em coro pelos manifestantes em frente à Câmara Municipal, os PMs que acompanhavam tudo partiram para o ataque com bombas de gás e gás pimenta. A explicação para a violência teria sido o símbolo anarquista e um #foratemer pichados momentos antes na parede do Palácio Tiradentes por algum ativista. Inaceitável já que a tinta de spray poderia ser coberta sem dificuldade na manhã seguinte.

Fim de protesto melancólico enquanto o Rio glamoroso brilhava no casamento do empresário de Madonna e U2 em festa aos pés da estátua no Corcovado. Hora de voltar para a minha praia musical, mas, primeiramente, picho (em neón, por favor!) o habitual #foragolpe, que, como sabemos, prossegue.

@@@@@Caetano caetana

Antes, mais um desvio, movido pela leitura de “Carmen Miranda não sabia sambar”, a nova introdução que Caetano Veloso fez para a edição de 20 anos revista e ampliada de “Verdade Tropical”. São 34 páginas que, fiel à máxima “tropichacrinhana”, servem mais para confundir (muitos daqueles que estão chegando agora ao livro) do que explicar. Pano também para mais polêmica. Goste-se ou não de Caetano e sua música (estou entre os primeiros, desde que ouvi em 1966, na voz da mana Bethânia, sua “É de manhã”, e um ano depois, na do próprio, “Alegria, alegria”), concordemos ou não com seu pensamento caótico e não convencional, “Verdade Tropical” é leitura deliciosa para qualquer um que se interesse pela cultura brasileira ou simplesmente por literatura. Ele mesmo, sem modéstia alguma, bota o monumental “Em busca do tempo perdido” de Proust como uma das referências para seu mergulho memorialista, ao lado de um elenco de escritores, filósofos que ainda passa por Thoman Mann, Antonio Cicero, Eduardo Viveiros de Castro, Deleuze, Agostinho da Silva, Mangabeira Unger, Augusto de Campos…

Nova intro que também é uma resposta ao ensaio sobre o livro publicado pelo crítico literário, sociólogo e pensador Roberto Schwarz em 2012, portanto, 15 anos após a primeira edição de “VT”. Agora, Caetano tanto se orgulha de ter tido uma crítica à altura quanto procura rebater as acusações de conservadorismo político. Afinal, Schwarz elogiou o teor literário mas bateu pesado no autor/personagem, que, entre outras falhas, teria feito uma aliança nos bastidores com o regime militar que o prendeu em 1968.

É bom lembrar que os livros de ambos (o de Schwarz, sob o título “Martinha versus Lucrécia: Ensaios e entrevistas”) saíram pela mesmo Companhia das Letras, que, assim, fatura duplamente com a polêmica. Mais para “polímica”, como diria Ezequiel Neves.

Ainda na abertura de 2017, Caetano aproveita para corrigir detalhes da primeira versão – Carmen Miranda não sabia sambar, Rita Lee não é da Pompeia.. -; reclama da tradução para o inglês e de sua edição nos EUA (com cortes e alteração da ordem dos capítulos), que foi usada nas seguintes, para espanhol, francês, grego..; e faz muitas revelações. De sua indefinível sexualidade ao idem pensamento político-existencial-religioso, passando pela profunda depressão que enfrentou aos 55 anos, após o nascimento do filho caçula, Tom, quando o suicídio foi uma das hipóteses. Felizmente, muitas doses de uma droga legal desde então, estamos lendo o livro revisitado.

No fim da introdução, Caetano dá um conselho para jovens que, agora, se preparam para enfrentar as 500 páginas de suas verdades: “… vá direto ao capítulo intitulado ‘Narciso em férias’. Ele poderia ser um livro independente. Nele há tudo que no resto do livro aparece em tom de ensaio. (…) …cara jovem, leia-o como se fosse um livro menos longo e melhor do que este. Depois, se quiser, leia os outros capítulos. E volte ao começo deste texto”.


Velho homem, mas, como na balada dos Tias Fofinhas (“Advice for the young at heart”), sentindo-me apto, pensei em seguir o conselho e ir diretamente ao capítulo da prisão. Mas, na verdade, deixei “Verdade Tropical” temporariamente de lado e devorei um volume que me aguardava há dois meses, “As crônicas de Elvis: Cadillac cor-de-rosa” (Tinta Negra). Inaugura uma trilogia que o jovem Daniel Frazão (39 anos) prepara, este primeiro, centrado entre a entrada do jovem Presley no estúdio da Sun Records, em 1954, e sua volta da Alemanha, em 1960, após dois anos servindo o Exército. Biografia romanceada, algo água com açúcar, em capítulos leves, escrita escorreita e esperta, que oferece um perfil psicológico do jovem caipira nerd que traduziu para o mundo o espírito então black (is beatiful) e rebelde do rock ’n’ roll. Vou esperar os próximos, “Hollywood” e “Vila Las Vegas”, quando, imagino, a água vai amargar muito, virar veneno.


@@@@@Tom vive

Não faltam tributos a Tom no ano em que completaria 90 anos, e “Jobim, Orquestra & convidados” (Biscoito Fino / Adnet Mvsica e patrocinadores, lançado em CD e DVD), mais um projeto de Mario Adnet (& família) e Paulo Jobim, está muito bem na fita. Garantem o deleite grande orquestra, um também afiado grupo de base e diferentes intérpretes. Estes, a maioria “filhos de”, a começar por Paulo e Daniel Jobim e também Antonia Adnet, Dora Morelenbaum, Vicente Nucci e Alice Caymmi, ao lado de outros novos como Alfredo Del-Penho, Júlia Vargas e Luiz Pié e ainda o virtuose Yamandu Costa, gente que se alterna com devoção através do repertório.

Se as versões para os clássicos não apresentam surpresas, mesmo por que o conceito que norteou o projeto foi seguir os “mapas” deixados por Tom – o que é feito com requintes de apaixonada perfeição -, temas menos conhecidos garantem lugar desse título na extensa e (que não para de crescer) discografia “tomjobiniana”. Incluindo três que não são dele e sim do filho Paulo, “A Mantiqueira range” (parceria com Ronaldo Bastos, mas que, como nessa versão, foi lançada sem letra, e sem o artigo no título, por Tom no álbum “Matita Perê”, 1973), “Valse” (também instrumental ao ser lançada por Tom, em “Urubu”, 1976, e, dois anos depois, relançada com outro título e letra de Ronaldo, “Olho d’água”, por Milton Nascimento em “Clube da Esquina 2”) e, esta inédita em disco, “Saci (As lavadeiras)” (mais uma com Ronaldo Bastos, esta aqui nas vozes do próprio mais as de Antonia e Mario Adnet). Tributo a Tom, mas que traz embutido um disco que ainda não foi feito reunindo a obra meio encoberta de Paulo Jobim – na verdade, e aprimorando a sugestão que, em julho, fiz ao acompanhar trecho de uma sessão de sopros no estúdio da Biscoito Fino, poderia ser em dupla com o filho/neto Daniel, que também adia a décadas um álbum solo.

Estranhamente, as instrumentais “Mantiqueira” e “Valse” e ainda “O amor em paz” (esta na voz de Paulo, que está longe de ser um cantor mas carrega o DNA) não entraram no DVD. Neste, há opção de assistirmos apenas às canções ou introduzidas por breves depoimentos de cada intérprete e demais envolvidos na criação. Aconselho ir diretamente para a música, já que boa parte dos 18 minutos do documentário que completa o menu é ocupado pelos mesmos depoimentos que antecedem as canções.

O que vale mesmo é o CD. Sábado passado, no show de lançamento na Cidades das Artes – local que também abriga a sala com enorme pé direito na qual o naipe de cordas foi gravado -, a química não funcionou plenamente. Apesar da beleza de repertório, arranjos (entre originais de Claus Ogerman e Tom ou de Adnet e Paulo) e execução instrumental, as interrupções entre os números para a troca de cantores e as protocolares falas tiraram um
pouco do encantamento que a audição em sequência das 13 faixas do CD proporciona. Estúdio que também permitiu nivelar por cima as interpretações, estas não tão completas ao vivo, quando o fundamental entrosamento com a orquestra é algo ainda inibidor. No palco, Júlia Vargas (à esquerda na foto) foi quem mais brilhou em “Olha Maria”, seguida por outra cantora de estilo e timbre diferenciados, Alice Caymmi (em “Falando de amor”). Concerto que também não contou com as presenças de Daniel Jobim (piano e voz em “O Boto”) e Yamandu Costa (violão de 7 cordas em “Um certo Capitão Rodrigo”). Esta, por sinal, é o outro grande achado no repertório, milonga (então com letra de, mais uma vez, Ronaldo Bastos, nas vozes de Kleiton & Kledir) tirada da trilha sonora que Tom Jobim escreveu para a minissérie “O tempo e o vento”. Baseada na trilogia de Érico Veríssimo e exibida pela Globo no início de 1985, a saga sobre os quase dois séculos de formação do estado do Rio Grande do Sul então foi atropelada pela frustrada posse de Tancredo Neves e pela minissérie em tempo real que virou a longa agonia até a morte do quase presidente. Mas, DVD com a série original (na foto ao lado) e disco com a trilha escrita por Jobim estão aí.

@@@@@Dubas fala

Antes de passar para o outro destaque e CD-comemorativo desta semana, coincidentemente, na quarta-feira (25/10), convidado por Ronaldo Bastos, juntei-me à mesa que o acompanhou em sua participação na série Depoimentos para a Posteridade do Museu de Imagem e do Som do Rio de Janeiro. Série que já acumula mais de 1200 depoimentos, desde seu início, em 1965, quando o pioneiro museu foi criado. Depoimento que durou cerca de quatro horas, tudo registrado em vídeo e áudio e disponível para consulta na sede da Lapa do MIS.

Não tentarei reproduzir o muito que conversamos, apenas subo uma foto que fiz. A partir da direita, que era à esquerda do entrevistado, vemos o cantor e compositor Celso Fonseca (parceiro constante nas duas últimas décadas, incluindo a trilogia “Sorte”, “Paradiso” e “Juventude / Slow motion bossa nova”, que rendeu também o álbum-conceito “Liebe Paradiso”), o jornalista Pedro Só (vice-presidente do MIS), Ronaldo, a cantora e compositora Joyce Moreno (também parceira eventual e amiga desde a adolescência de ambos) e o sociólogo e crítico musical Marcos Lacerda (que prepara um livro previsto para os 70 anos de Dubas, em 2018).

Nas últimas quatro décadas, desde que conheci Ronaldo numa festa da Nuvem Cigana em casa que se misturava às matas do Silvestre, em Santa Teresa, somos amigos. Amizade que sobreviveu às divergências ideológicas que aumentaram nos últimos anos e não entraram em pauta na tarde de quarta.

@@@@@Menescal comemora

Caçula da primeira geração bossa-novista, Roberto Menescal completou 80 anos nesta semana (dia 25) em plena atividade. Em meio a shows e discos comemorando a data, “Mr. Bossa Nova” (NaLua / Mins Música), gravado ao lado do Quarteto do Rio (formado pelo músicos e cantores que acompanhavam Severino Filho n’Os Cariocas) é pedida certa. Em suas dez faixas, Menescal (guitarra e voz), Elói Vicente (violão e voz), Neil Teixeira (baixo e voz), Fábio Luna (bateria e voz) e Leandro Freixo (teclado e voz) recriam com técnica impecável e frescor oito clássicos da parceria com Ronaldo Bôscoli (sendo que dois deles, “O barquinho” e “Você”, reunidos); assim como a única composta com o depois desafeto Chico Buarque (“Bye bye Brasil”); e ainda três novas que mantêm o alto nível, duas em parceria com Paulo Sérgio Valle, “Ela quer sambar” e “Você me ganhou”, e uma com Andréa Amorim, “Um tiquinho só”.

Ricas e sofisticadas melodias e harmonias que servem de plataforma para os voos de brigadeiro proporcionados pelas atemporais interpretações do quinteto. Elo com a bossa, sensação de eterno presente, que é realçado no projeto gráfico, de Angela Bressane, preto e branco com detalhes em vermelho, citando o estilo criado pelo designer César Vilella e pelo fotógrafo Chico Pereira para as capas dos discos do selo Elenco (como o do primeiro álbum de Menescal, “e seu conjunto”, em 1963, que reproduzo ao lado). Mr. Bossa Nova, ou “O Barquinho” (como João Gilberto, não se sabe se com carinho ou deboche, costumava se referir a ele), merece.

@@@@@Poesia musicada

Poesia musicada e embalada por pop melancólico é o que o jovem paraense Arthur Nogueira entrega em “Rei Ninguém” (Joia Moderna / Natura Musical). É seu quarto disco e, apesar de boas referências e parcerias, soa tão desinteressante quantos os dois anteriores, “Sem medo nem esperança” (2015) e “Presente” (2016) – este, um tributo ao parceiro mais constante, o novo membro da ABL Antonio Cicero, com quem divide, agora, duas novas , “Consegui” (música que flerta com o brega, dedicada a Waly Salomão e cantada em dueto com a conterrânea Fafá de Belém) e “A hora certa”. Outro poeta, Eucanaã Ferraz (“Papel, tesoura e cola”), os cantores e compositores Zé Manoel (que toca piano e teclados e em canta em sua “Moonlight”) e Luiz Gabriel Lopes (em “Lume”, com citação de trecho do poema “Vendo a noite”, de Ferreira Gullar) e, por tabela, até o Nobel Bob Dylan (“Vou ficar tão só se você se for”, versão que Nogueira e Erick Monteiro Moraes fizeram para “You’re gonna make me lonesome when you go”) também contribuem para o conteúdo poético.

@@@@@Balanço festeiro

Sobra balanço em “Moto contínuo” (independente / Tratore), terceiro álbum do coletivo Grooveria, grupo que começou em São Paulo há uma década e meia, comandado pelo baterista, compositor, arranjador e produtor Tuto Ferraz. Autor, quase sempre com parceiros, de seis das nove faixas – sendo que uma delas, “Chapando o groove”, parceria com Fernanda Abreu, volta no fim como bônus e letra em inglês, “Alright” -, Ferraz investe na já trilhada mescla de funk & samba. Ecos de Chic, Earth, Wind & Fire e afins se juntam aos de Jorge Ben e Banda Black Rio e dão liga, que é reforçada por um time que alterna instrumentistas paulistanos e cariocas. Para completar o repertório estão três regravações que também revelam bastante sobre as intenções do grupo: uma versão funk-jazzy à la Banda Black Rio de “Ponteio” (Edu Lobo e Capinam, cantado por Walmir Borges), o afro samba “Berimbau” (Baden e Vinicius, na voz de Fernanda Abreu) e “Jorge Maravilha” (rara e certeira incursão de Chico Buarque pelo terreno do samba-pop, realçada aqui pelo canto malandro de Mart’nália). Sem muitas pretensões, é disco para animar a festa.

@@@@@

Na fim da tarde de ontem, também encontrei dois títulos do Selo Sesc, ambos de música clássica que rodarão no toca CDs a partir de amanhã..

Quarteto Carlos Gomes, interpretando três compositores do romantismo brasileiro: a partir do que deu nome ao quarteto de cordas formado por Cláudio Cruz (violino), Adonhiram Reis (violino), Gabriel Marin (viola) e Alceu Reis (violoncelo) e ainda Alexandre Levy (1864-1892) e Glauco Velásquez (1884-1914).

“Debut”, do violonista Paulo Martelli, disco gravado em 1993, editado mundialmente dois anos depois por um selo canadense (GRI), mas que continuava inédito no Brasil.

@@@@@Miles & Coltrane

Hora de passar para o único título conferido digitalmente que teve vez nessa semana, “A música de Miles e Coltrane”(independente). Gravado no mês passado no estúdio (e pequeno palco para shows) Áudio Rebel, em Botafogo, traz seis temas que fizeram parte de álbuns de Miles Davis e John Coltrane. Três deles saídos do clássico “Kind of blue”, que o trompetista lançou em 1959 com um grupo que incluía o saxofonista: “So what” (Miles) , “Blue in green” (Bill Evans) e “All blues” (Miles). Completam o repertório, outra composição de Miles (“Seven steps to heaven”), uma de Coltrane (“Blue trane”) e “Theme for Ernie” (Fred Lacey, gravada por Coltrane em seu quarto disco solo, “Soul Trane”, em 1958). É jazz moderno (do cool ao hard bop e o modal) com pontuais e preciosas pitadas afro-latinas em alguns momentos (como se ouve em “All blues” e “So what”), num saboroso blend que, através do último ano, vinha sendo destilado por um grupo de músicos reunidos pelo baterista e arranjador Roberto Rutigliano. Ao lado dele participaram das gravações o percussionista Didac Thiago, o pianista Marcelo Magalhães Pinto, o trompetista Altair Martins, o saxofonista e flautista Widor Santiago e, alternando-se no contrabaixo, Sergio Barroso e Alex Rocha.

Boa trilha para a tarde que avança, até o show de Hermeto Pascoal & Big Band, que, a partir de 23h, lançam em show no Circo Voador o CD “Natureza universal”.

Crédito imagens: reproduções capas de CDs, livros e DVD; e ACM (manifestação na Cinelândia, concerto Jobim na Cidade das Artes e mesa de Ronaldo Bastos no MIS-RJ).

Deixe uma resposta