Tiê oscila em ‘Gaya’ entre as emoções reais e os padrões da indústria pop


A ficha técnica do quarto álbum de Tiê – Gaya, disponível no mercado fonográfico a partir de hoje, 27 de outubro de 2017 – aparentemente embaralha as cartas marcadas da indústria da música ao agregar na ficha técnica os nomes do cantor Luan Santana, do músico Alexandre Kassin, do compositor Bruno Caliman, da dupla-banda As Bahias e a Cozinha Mineira e do cantor Filipe Catto. Mas aparências também enganam.


Luan e Caliman estão associados ao universo sertanejo. Incensado pela mídia, Kassin é o produtor carioca que determinou padrões da cena musical contemporânea do Rio de Janeiro a partir dos anos 2000. Egressa da cena paulistana, a recente dupla As Bahias e a Cozinha Mineira tem aura hype até pelo fato de hastear a bandeira trans. Já Catto oscila entre o desejo de ser mainstream e ter o status da cena indie – assim como o quarto álbum de Tiê.


Produzido por Adriano Cintra e André Whoong, Gaya chega ao mercado com a missão de manter a popularidade conquistada por Tiê com o terceiro álbum, Esmeraldas (2014), cuja faixa A noite – versão em português (escrita por Tiê com Adriano Cintra, André Whoong e Rita Wainer) da canção italiana La notte (Giuseppe Anastasi), apresentada pela cantora italiana Arisa em disco de 2012 – estourou em todo o Brasil e pôs a voz doce de Tiê no topo das paradas do mainstream.

Gaya acena para o público que curte A noite e que consome o pop produzido em escala industrial. Mas consegue manter o bom gosto pela forma que os produtores dão a canções essencialmente populares. Oi (Tiê e André Whoong), por exemplo, é trivial balada romântica e melodiosa como zilhões de canções já gravadas por cantores populares. A faixa não deixa dúvidas de que Tiê se esforça para atingir a meta comercial proposta pela Warner Music, gravadora que espera o retorno do investimento feito nessa artista paulistana cuja carreira fonográfica foi iniciada há dez anos com edição em 2007 de EP independente.


Três álbuns (Sweet jardim, A coruja e o coração e Esmeraldas, de 2009, 2011 e 2014, respectivamente) e dez anos depois, Tiê ainda conserva algo daquele folk fofo e pop que dava o tom confessional da obra da artista na inicial fase indie. A diferença é que as canções estão embaladas/enlatadas em Gaya com a textura pop eletrônica criada pelos produtores Adriano Cintra e André Whoong com os toques de baterias eletrônicas, sintetizadores e cordas, como o primeiro single Mexeu comigo (Tiê, Adriano Cintra e André Whoong) já sinalizara em abril.

Dentro dessa sintetizada atmosfera sonora, Tiê procura transmitir emoções reais como o singelo recado de mãe para filha dado em Pra amora (Tiê e André Whoong), música de refrão envolvente. E por falar em refrão, o de Torrada e café (Bruno Caliman e Tiê) também é especialmente saboroso. A canção tem pegada. Contudo, como canção pura e simples, nenhuma soa tão bela e pungente como a já conhecida Amuleto, balada de autoria de um hitmaker do universo sertanejo, Bruno Caliman, parceiro de Tiê em Torrada e café. A música em si já é sedutora. Mas a gravação de Tiê aumenta esse poder de sedução por conta do arranjo refinado que combina a guitarra lap steel de Kassin com o violão do músico norte-americano Jesse Harris e com o canto melancólico da intérprete. Como está incluída na trilha sonora da nova novela das 21h da TV Globo, O outro lado do paraíso, Amuleto tem tudo para dar sorte a Tiê na missão de emplacar um hit popular e justificar o investimento da gravadora.


Contudo, se Amuleto falhar, Duvido (Rafael Castro, Tiê, André Whoong, Adriano Cintra, Nina Anderson e Biboldo) pode cumprir o papel de seduzir o mercadão pop. Trata-se de baladão doído de amor que poderia ter sido gravado por qualquer dupla sertaneja. Luan Santana inicia esse dueto de amor desiludido feito com Tiê. É a faixa em que a cantora mais parece fora do universo particular, soando artificial e pagando o preço cobrado pela indústria da música. Preço que parece incluir a desnecessária intervenção da cantora mexicana Ximena em Tudo ou nada (Tiê, Adriano Cintra, André Whoong e Ximena Sariñana), articulada provavelmente para abrir portas para Tiê no mercado musical de língua mais hispânica.

De todo modo, duetos estratégicos à parte, cabe dizer que há músicas mais insossas, caso de Me faz (Tiê e André Whoong), cujo arranjo evoca o pop sintetizado da década de 1980 com as programações de Adriano Cintra. Outras músicas, como O mar me diz (Tiê, Adriano Cintra e André Whoong) e Deixa pra depois (Tiê, André Whoong e Rita Wainer), evidenciam certa redundância na textura pop eletrônica do repertório.


A redenção vem no fim do álbum, com Vida (Tiê), bela canção, típica de Tiê, encorpada com os vocais celestiais de acento gospel feitos por Filipe Catto e por Assucena Assucena e Raquel Virgínia, vocalistas e mentoras de As Bahias e a Cozinha Mineira. Na medida em que Vida passa com sublimes quatro minutos e 16 segundos gerados pela reflexão de um flash cotidiano, o álbum Gaya mostra que, mesmo com alguns percalços, Tiê às vezes vence o debate entre a entrega ao mainstream e a manutenção de uma essência musical que o mercado pop tende sempre a diluir e/ou padronizar. (Cotação: * * * 1/2)


(Créditos das imagens: capa do álbum Gaya. Tiê em fotos de divulgação)

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