Lixo ou luxo, a novela é a vida como ela parece ser

Juliana Paes, como Bibi Perigosa em 'A força do querer'
“Juro, por tudo que me é sagrado, que eu não entendo como você consegue assistir a esse lixo. Você realmente sustenta que sejam de alguma importância como crônicas do imaginário brasileiro? Lixo lixo lixo. É o denominador comum mais tenebroso do audiovisual brasileiro, uma verdadeira lavagem cerebral de valores no mínimo questionáveis que vem sendo feita há DÉCADAS, à moda do grande projeto hollywoodiano do início do século XX. Personagens SEMPRE caricatos, enredos SEMPRE repetidos ad nauseam, previsíveis, enfim… um horror.”


Este foi o comentário de um amigo sobre o meu post publicado no dia 1/9/2017.


Respeito muitíssimo meu amigo e sei que sua opinião é compartilhada por pessoas cultas e lidas. Tentei me defender da crítica dizendo que gosto de muitas coisas e também de novela porque tenho o vício de querer entender o meu País. Já me referi neste blog quão longa é a história do meu gostar de novela.


Volto à questão para esclarecer melhor o meu ponto de vista. Sou antropóloga e, além disso, tenho uma personalidade obsessiva. Meu gostar de novela aconteceu quando nem tinha televisão em casa, por opção. Era o ano de 1977, no século passado, portanto. Desde então descobri que a novela não se distanciava tanto assim das tragédias e dos mitos. Vou repetir aqui como tudo começou.


Na época, dava aulas de introdução à antropologia como fiz durante quarenta e três anos. Meus alunos, naquele tempo, eram recém-chegados à vida universitária. A maioria, pobres, primeira geração de estudantes do terceiro grau de sua família, misturados a uns poucos mais prósperos e com boa herança educacional.


Costumava apresentar-lhes, como um dos textos introdutórios, o artigo de Laura Bohannan, antropóloga norte-americana, no qual conta como iniciou sua pesquisa entre os tiv, povo da África Ocidental. Na véspera de sua partida para o campo, um amigo inglês tentou convencê-la que os americanos não entendiam Shakespeare e ela contra-argumentou afirmando ser Shakespeare universal. O amigo lhe deu então as obras completas do maior autor da língua inglesa e esse foi o único livro que levou para sua primeira viagem de campo. Bohannan contou aos tiv a tragédia de Hamlet e, neste artigo, relata como os nativos a interpretaram.


Meus alunos nunca haviam lido Hamlet e, como não existia YouTube para me auxiliar na tarefa, decidi contar-lhes a tragédia. Comecei com entusiasmo a falar do espectro de Hamlet aparecendo para seu filho, e fui indo. Olhava para a turma e seus olhares demonstravam estar completamente entediados. A cada minuto fui desanimando. Terminei a história quase chorando.

Os estudantes disseram: “Mas que história chata, morre todo mundo no final.” Fechei o livro com a certeza de ser uma péssima contadora de histórias. Quando chegava à porta da sala de aula, uma aluna levantou o dedo. Virei-me, e ouvi seu comentário: “Mas professora, essa história é igual à da novela “O Astro”. A frase me pareceu uma chave de ouro. Sentei-me, e lhe pedi para me contar a história. Foi um pequeno achado. Afinal, a associação das duas narrativas me pareceu um sinal forte sobre a importância da novela no imaginário brasileiro.


Decidi então ver a novela de Janete Clair. Como não tinha televisão, assistia na casa de amigos, vizinhos e de pessoas de várias camadas sociais. Descobri o ritual de ver novela e trabalhei durante dois anos com meus alunos, que fizeram etnografias de suas casas e de como assistiam a novela das oito (naquele tempo a novela da Globo era às 8 horas).


Aprendi que as novelas, como os mitos, falam das relações entre os vivos, dos vivos com os mortos e das regras sociais de forma a apresentar esses códigos com todas as suas variações. Toda a novela tem um personagem que não sabe quem é seu verdadeiro pai ou mãe. Assim como no mito, essas histórias descrevem a sociedade de forma a apresentar na trama como devem ser as relações entre consanguíneos e afins. A narrativa, simples, sempre apresenta as diversas possibilidades e regras, mesmo as socialmente pensadas mas não realizadas. O final da novela é sempre baseado no código: aos bons uma vida feliz, geralmente obtida pelo casamento; aos maus algum castigo e muitas vezes a morte. Mas diferentemente da tragédia ou do mito, os castigos não são tão cruéis.


E quem são os bons e os maus? Os bons têm relações afáveis com seus consanguíneos, filhos, mães, pais, avós etc. Podem errar na vida, mas sempre serão recompensados se forem bons filhos, filhas, mães, pais, avôs ou avós etc. Romper essas regras é o pior dos tabus.


Meus alunos fizeram brilhantes etnografias que me levaram a este modelo descrito em um artigo inédito até hoje. Pensei muito na maneira pela qual as tragédias gregas foram escritas.


Ésquilo (424-456 a.C.), Sófocles (496-406 a.C.) e Eurípedes (480-406 a.C.) escreveram sobre seus deuses e personagens míticos de sentimentos humanos como amor, vingança, ódio, inveja. Nossos autores de novela escrevem sobre personagens reais, mesmo se alguns apresentam características míticas como a Sereia da última novela de Gloria Peres, “A Força do Querer”, e os atores, como na Commedia dell Arte, se confundem com as pessoas descritas na ficção. Volta e meia ouvimos frases como “Na vida real, Juliana Paes……”


Comparar as tragédias ou os mitos com as novelas pode ser considerado uma espécie de absurdo, porém basta ler os pequenos cadernos com as etnografias dos meus alunos para se ter a exata medida da importância dessas histórias na vida das pessoas de todas as classes. Os temas tratados podem mudar e mudam sempre. Em “A Força do Querer”, há temas tabus até pouco tempo como a vida dos travestis, a descoberta da transsexualidade e, sobretudo, o mundo perigoso, cheio de luxo e maldade e também encantado do tráfico e dos traficantes de drogas montados em dinheiro, em cordões pesados de ouro, em festas suntuosas de funk e cheios de armas pesadas.


E o final desta última novela de Gloria Peres parece ter agradado a maioria dos telespectadores, os quais foram, com a autora, construindo a trama, reforçando alguns personagens e apagando outros. Aos bons, uma vida feliz no casamento ou na riqueza, aos maus, a morte ou a solidão.

Vejamos:

A Rubinho, que se tornou traficante e abandonou o lar, o filho e a família, foi reservada a morte.

Também a morte, dentro de um surto cheio de visões tenebrosas, atingiu a perversa Irene, assassina e ladra, e ainda golpista enganando um pacato amante torturado por angústias de identidade.

Bibi perigosa, por ter desobedecido à mãe e de certa forma abandonado o filho, foi presa, e só depois de expurgar seus erros pôde ter a felicidade junto a seu verdadeiro amor.

A policial Geysa, boa filha, viverá uma vida feliz com Zeca, o personagem sem defeitos.

Abel, pai de Zeca, casa-se com a cobra da dona Coisinha, a Edinalva, merecendo o amor e a felicidade porque foi um pai prestimoso e nunca abandonou o filho.

E o fabuloso Sabiá, é um caso limite no meu modelo. Embora traficante e o todo-poderoso dono do morro e com vários crimes nas costas terá o seu castigo, pagará mas não com a morte, pois tinha regras bem claras sobre o papel do pai no sustento dos filhos. Nas leis do tráfico de drogas no morro, os pais têm de sustentar seus filhos, mesmo depois de separados e se juntado a outras mulheres.


Espantei-me com a ausência de um personagem colocando em questão a criminalização das drogas. Isso pode significar ser este um tema impensável para a maioria dos brasileiros, embora já existam grupos de juízes, policiais e grandes personalidades internacionais lutando pela legalização do consumo, do comércio e da produção das mesmas. Nenhuma palavra foi dita a este respeito.


Como os mitos, as novelas são histórias contadas, como disse acima, e não as vejo com o olhar de crítica de arte. Vejo-as me perguntando, como o historiador Paul Veyne, sobre se os gregos acreditavam em seus mitos, se os brasileiros acreditam nas suas novelas, ou mitos.

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