Sanfona veste a obra de Lívia Mattos em CD de tom regional cosmopolita


Na bela capa do álbum Vinha da ida, Lívia Mattos aparece vestida de sanfona na foto de Tiago Lima como se ela, a sanfona, fosse um parangolé. É a roupa sonora que mais cai bem nesta cantora, compositora e instrumentista baiana que faz música a partir do acordeom. Em Vinha da ida, álbum produzido por Alê Siqueira com acento tão regional quanto cosmopolita, o acordeom tocado com destreza por Lívia soa sobressalente nas dez músicas autorais deste disco que abre porta para a artista, sanfoneira da banda de Chico César.


A voz do cantor paraibano, aliás, é ouvida no gozo romântico que emerge em Amarear (Lívia Mattos), última música do álbum em que a artista também faz dueto com Zé Manoel. A voz e o piano do artista pernambucano adornam Sabia pouco do sal, uma das composições mais inspiradas da safra autoral da nova baiana.


Com trajetória artística iniciada no circo, Lívia reaviva o espírito lúdico do picadeiro em Melodia-a-dia, espécie de fanfarra feita com pandeiros, tuba, instrumentos de cordas e, claro, o acordeom – tudo (bem) orquestrado por Jamberê Cerqueira. O projeto gráfico de Tiago Ribeiro para a edição em CD de Vinha da ida também remente ao universo circense.


Entre a energia convidativa de Mais eu (Lívia Mattos e Jurandir Santana), a beleza poética / melódica de Olhos de Tereza (Lívia Mattos) e a vivacidade de O que eu quero levar, parceria da artista com o acordeonista franco-português Loic Cordeone registrada no disco com o toque da sanfona de Toninho Ferragutti, Lívia Mattos ecoa lirismo brejeiro que, pelo fio invisível da memória afetiva, parece desencapar influências da obra matricial de Luiz Gonzaga (1912 – 1989). Há algo desse cancioneiro na evocação do São João nordestino feita em Sob o céu sobre o chão (Lívia Mattos), música que estende tapete de imagens poéticas. A compositora, a propósito, joga bem com as palavras poéticas.


Disco gravado com músicos da Bahia e viabilizado com recursos financeiros do governo desse estado e do projeto Natural Musical, Vinha da ida não começa de forma tão sedutora, apresentando a música-título Vinha da ida (Lívia Mattos) e emendando com Vou lá (Lívia Mattos e Loic Cordeone), mas, à medida que avança, vai cativando com o universo particular dessa artista sanfoneira circense que, como ressalta o maestro Letieres Leite em depoimento sobre o disco, dá conta lindamente de cantar as próprias criações.


Com repertório que versa muito sobre o universo marítimo, evocado de forma recorrente nas letras de músicas como Deixa passar (Lívia Mattos), o álbum Vinha da ida pavimenta nova e longa estrada para Lívia Mattos. (Cotação: * * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Vinha da ida, de Lívia Mattos)

Deixe uma resposta