Scalene prova com ‘Magnetite’ que há vida e há rock sob os escombros


Os heróis do rock brasileiro estão mortos, em grande maioria. O poder, na música, é ocupado por artistas padronizados cujas letras hedonistas descartam qualquer ideologia de tom mais crítico. Nesse campo minado em que o rock foi implodido pelo trator pop sertanejo, chega a ser improvável que uma banda (de rock) como a brasiliense Scalene esteja ampliando o público e a visibilidade com o terceiro álbum de estúdio, Magnetite, ora disponibilizado pelo selo slap em formato de CD dois meses após o lançamento da edição digital, em agosto deste ano de 2017.


Magnetite é disco de rock, gênero enraizado nas 12 músicas inéditas assinadas pelo guitarista, vocalista e frontman da Scalene, Gustavo Bertoni, com Tomás Bertoni (guitarra e teclados), Lucas Furtado (baixo) e Philipe Conde Makako (bateria e vocal). Em cena desde 2009, a Scalene vem galgando trajetória ascendente que culminou, em 21 de setembro, com apresentação da banda no Palco Mundo da sétima edição carioca do festival Rock in Rio em noite pautada pelo rock pesado. No confronto com o show, o disco soa menos pesado e visceral, mas, em contrapartida, a dicção de Gustavo Bertoni soa compreensível e há mais unidade no repertório.


Embora escancare batidas de stoner rock (em Extremos pueris e na inebriante Trilha) e até de dance-punk (em Ponta do anzol), o álbum Magnetite já deixa entrever com alguma clareza a influência da música brasileira no rock da Scalene, sobretudo em Esc (Caverna digital), faixa que esboça levada da música nordestina. Paralelamente, uma visão aguçada da sociedade – a tal ideologia crítica que escasseia no rock brasileiro desde os anos 2000 – está exposta em Distopia, música (já alvo de clipe) em cuja letra o grupo questiona a fé dos falsos profetas.


Imponente no próprio altar particular, a Scalene já vinha dando sinais de que ia manter o público conquistado e ampliado com os álbuns Real / Surreal (2013) e o angustiado Éter (2015). A já mencionada Ponta de anzol e Cartão postal – tema de versos reflexivos – foram faixas que, lançadas previamente em singles, antecederam o álbum produzido pela Scalene com Diego Marx. Ouvir um post-hardcore como Heteronomia, a sombria Frenesi ou Velho lobo é atestar a evolução exposta pela banda em Magnetite, álbum que prova que, se escavar o garimpo do rock, há luz e algumas pedras preciosas debaixo dos escombros. (Cotação: * * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do álbum Magnetite, da banda Scalene)

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