Através de Rita, Lulu saúda em ‘Baby baby’ o pop do qual já é rei vitalício


Lulu Santos e Rita Lee hastearam a bandeira do rock ao longo da década de 1970. Ela em conexão com o grupo Tutti Frutti no mainstream nacional habitado na fase pós-Mutantes. Ele no underground carioca como integrante da Vímana, banda de sons progressivos. Mas tanto Lulu como Rita solidificaram as respectivas trajetórias quando seguiram o trilho pop que os levou a alcançar picos de popularidade e vendas ao longo dos anos 1980. Nesse trilho, ambos foram entronizados como reis do pop nativo. Ela a reboque da parceria (ainda não devidamente valorizada na medida da grandeza) com Roberto de Carvalho. Ele como arquiteto de cancioneiro solo pautado justamente pela excelência pop.


Não por acaso, ambos se encontraram no primeiro álbum de Lulu, Tempos modernos, lançado em 1982 com duas músicas de Rita entre as nove composições do álbum, Scarlet Moon e De leve, versão em português, escrita por Rita com Gilberto Gil, de Get back (John Lennon e Paul McCartney, 1969), sucesso dos Beatles. Decorridos 35 anos, o álbum Baby baby! – lançado hoje, 20 de outubro de 2017, por Lulu – promove o reencontro dos dois artistas. Através de releituras de 12 músicas do cancioneiro autoral de Rita, Lulu celebra o pop do qual é um dos reis vitalícios no Brasil.


Também não por acaso, Baby baby! abre com Disco voador (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1978), título inaugural da parceria com Roberto de Carvalho que entronizou Rita no olimpo pop. Disco voador plana por um espaço pop comum a ambos, mas sem esbarrar no meteoro do cover, mostrando que Lulu canta Rita como Lulu, sem anular a própria personalidade artística, como já sinalizara EP editado em 6 de outubro com quatro das 12 faixas do álbum.


Como essa personalidade artística de Lulu tem atualmente traços acentuados do funk carioca, soam naturais a conexão com o DJ Sany Pitbull em Agora só falta você (Rita Lee e Luiz Carlini, 1975) – rock da fase Tutti Frutti jogado na pista do baile funk – e o mix do tamborzão com clima de bolero caribenho que embasa Caso sério (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1980).


Faixa produzida por Silva, a canção Ovelha negra (Rita Lee, 1975) – espécie de carta de princípios geracionais – é ambientada em atmosfera de luau tecnopop armado na praia do reggae. E, nesse ponto, as letras, Baby baby! por vezes dilui o sentido do cancioneiro de madame Lee. Houve um zelo de Lulu com a arquitetura dos arranjos, isto é, com a moldura pop em que as músicas foram enquadradas. Mas nem sempre esse cuidado abarca as letras. Toda a sensualidade e intimidade da canção Mania de você (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1979), por exemplo, se esvai na sintetizada textura sonora do arranjo.


Única música do repertório do grupo paulistano Os Mutantes, Fuga nº II (Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias, 1969) vira luxuoso pop retrô de estilo AOR que dissolve o sentido existencialista dos versos que relatam escapada do status quo representado pela casa dos pais. Já Baila comigo (Rita Lee, 1980) acentua a latinidade já inerente à música em ritmo que se acelera e dilui a ambiência zen entranhada na gênese da canção.


Em contrapartida, Paradise Brasil (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 2012) – música de um dos álbuns menos inspirados de Rita, Reza (2012), lançado há cinco anos – vira apropriada carnavália tropicalista com mix das batidas do DJ Memê e percussão de escola de samba com o toque de Pretinho da Serrinha. Em outra pista, a do drum’n’bass do DJ Marcelinho da Lua, Alô, alô, Marciano (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1980) – única música de Baby baby! não associada a Rita por ter sido lançada na voz de Elis Regina (1945 – 1982) – se beneficia da atmosfera sideral de parte do álbum.


Desculpe o auê (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1983) virou tecnopop havaiano enquanto Mamãe natureza (Rita Lee, 1974), rock gravado por Rita com o Tutti Frutti mas composto em 1973 na época da dupla Cilibrinas do Éden (formada com Lúcia Turnbull), tem toque de gaita que remete ao universo country.


No fim, Nem luxo nem lixo (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1980) faz pulsar a mesma veia pop que sustenta Disco voador na abertura de Baby baby! – um álbum com capa de estilo pop art em que Lulu canta Rita Lee, mas sobretudo um disco de Lulu Santos, mestre na arte de fazer pop. (Cotação: * * * 1/2)


(Créditos das imagens: capa do álbum Baby baby!. Lulu Santos em foto de Leo Aversa)

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