Cinco álbuns voltam ao catálogo com outros tons da ‘aquarela’ de Emílio


Um dos melhores cantores brasileiros de todos os tempos, dono de voz aveluda e extremamente afinada, o carioca Emílio Santiago (6 de dezembro de 1946 – 20 de março de 2013) somente passou a ser um grande vendedor de discos a partir de 1988, ano em que gravou o primeiro volume da série intitulada Aquarela brasileira. Com discos de repertórios pautados por medleys de sucessos alheios, a série gerou sete volumes lançados entre 1988 e 1994, pela gravadora Som Livre, e deu a Emílio o sucesso popular contínuo que ele nunca tinha obtido até então, em que pesem eventuais picos de visibilidade no universo pop brasileiro.


Contudo, o suprassumo da discografia do cantor carioca são os dez álbuns que Emílio lançou entre 1976 e 1984 pela gravadora Philips, quase todos com músicas inéditas de grandes compositores da MPB. Valorizada no Japão, país onde estes discos já ganharam caprichadas edições em CD, a discografia do cantor tem sido negligenciada pelo mercado fonográfico brasileiro. Em 2009, sob licença da gravadora Universal Music (detentora do acervo da Philips), o selo Dubas reeditou um dos melhores títulos dessa primeira década da discografia de Emílio, Feito pra ouvir (1977). Em 2013, a própria Universal Music reeditou em caixa da série Tons os álbuns Comigo é assim (1977), O canto crescente de Emílio Santiago (1979) e Guerreiro coração (1980). Mesmo assim, metade dos dez títulos ainda permanece inédita no formato de CD.


De todo modo, para quem prefere comprar e/ou ouvir discos em plataformas digitais, a mesma Universal Music está lançando, neste mês de outubro de 2017, edições digitais de cinco álbuns de Emílio. Quatro – Emílio (1978), Amor de lua (1981), Mais que um momento (1983) e Tá na hora (1984) – nunca foram lançados em CD no Brasil. A exceção é o já mencionado Feito pra ouvir.

Desse lote nunca editado em CD, a pérola é Emílio, o disco de 1978 produzido por Sérgio Carvalho e gravado com time excepcional de músicos que inclui, entre outros, os pianistas Antonio Adolfo e João Donato, arranjadores de várias faixas do disco (Adolfo orquestrou três e Donato, quatro). O repertório enfileira títulos poucos ouvidos dos cancioneiros de Djavan (Total abandono), Gonzaguinha (1945 – 1991) (Não quero mais chorar) e da parceria de Ivan Lins com Vitor Martins (Vento de junho).

Gonzaguinha, aliás, é nome recorrente na discografia de Emílio Santiago. Em Amor de lua, álbum de 1981, ele é o autor de outra música pouco ouvida, Nós ou ninguém. Letrista e poeta mineiro que saiu de cena há 30 anos, Cacaso (1944 – 1987) assina três das 13 músicas do álbum com parceiros diferentes. Cena breve tem música de Edu Lobo. A melodia de Me dá me dá traz a assinatura de Francis Hime. João Donato é o parceiro de Primeiro e segundo.

Já Djavan comparece no álbum seguinte, Mais que um momento, com outra obscura composição de lavra própria, Desfigurado. Neste disco de 1983, Emílio mergulhou no universo da black music, cantando soul e funk, como já sinaliza a música que abre o álbum, O amigo de Nova York (Macau e Durval Ferreira). Mestre da soul music nacional, Cassiano assina Carícia e sedução, parceria com Denny King. Ecos da música gospel norte-americana reverberam nos vocais que embalam Nego John (Carlos Conceição), outra composição em que Emílio entrou no baile black Rio.

Título mais fraco do lote inédito em CD, o álbum Tá na hora (1984) mantém acesa a chama black em músicas como Tudo é brincadeira (Jamil Joanes) e Revelação (Macau e Nelson Motta). Mas já é um álbum empapuçado dos sintetizadores que deram o tom tecnopop dos anos 1980. Tom também presente na colorida aquarela de sons ouvidos nestes cinco álbuns do imortal Emílio Santiago ora postos em catálogo em edições exclusivamente digitais.


(Créditos das imagens: capas dos álbuns Feito pra ouvir, Emílio, Amor de lua, Mais que um momento e Tá na hora, do cantor Emílio Santiago)

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