João Bosco segue impávido por novos caminhos no álbum ‘Mano que zuera’


No princípio do primeiro álbum de músicas inéditas de João Bosco em oito anos, Mano que zuera (MP,B Discos / Som Livre), não é o verbo, mas um lamento profundo, sem verso, que vai do barroco mineiro ao universo árabe. É dessa ótica ampla que parte o disco concebido por João com Francisco Bosco, letrista de quatro das oito músicas inéditas. A começar por Fim, esplêndida música aberta com o lamento de Bosco e conduzida pela trama tecida com a harmonização do violão do próprio Bosco com o acordeom de Marcelo Caldi e o violoncelo de Jaques Morelenbaum (instrumento cuja fricção o faz soar como rabeca ao fim do arranjo).


Em Mano que zuera, Bosco se mostra em movimento contínuo sem repetir fórmulas melódicas e harmônicas, em atitude de coragem evidenciada pela construção inusitada do inebriante samba Duro na queda, única música inédita da obra com Aldir Blanc, letrista da parceria que alicerçou o cancioneiro de Bosco na década de 1970. Do Rio de Janeiro (RJ), cidade que acolhe desde então este mineiro de Ponta Nova (MG), Bosco foca o mundo que gera o rico universo musical do artista no álbum gravado com os toques virtuosos de músicos como o baterista Jurim Moreira e o guitarrista e violonista Ricardo Silveira.


Se a geografia carioca inspira o sobrevoo dos versos de Ultra leve (primeira parceria com Arnaldo Antunes gravada por Bosco com a devida leveza e com a voz da filha cantora Julia Bosco) e a bossa de Quantos Rios (João Bosco e Francisco Bosco), Pé-de-vento se espraia pela baianidade nagô típica do universo do compositor baiano Roque Ferreira, letrista do samba.


Enraizado nesse Brasil africano que jorra sangue negro e índio, o samba João do Pulo (João Bosco e Aldir Blanc, 1986) é reavivado 31 anos após o registro original em conexão com Clube da esquina nº 2 (Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges, 1972) – salto que, no universo e no entendimento particular de Bosco, evidencia a origem afro-tupi que pulsava na figura do atleta paulista João Carlos Oliveira (1954 – 1999).


No mapa-múndi musical de Mano que zuera, Bosco abarca sons da África, do Rio, do Nordeste mais mouro – evocado no aboio contido na canção de maior empatia popular do disco, Onde estiver (João Bosco e Francisco Bosco), tema que destila a emoção de pai que declara amor incondicional aos filhos – e das Arábias. Recorrente, a África pulsa no toque da morna cabo verdiana que move Sinhá, obra-prima da parceria bissexta com Chico Buarque, lançada pelo parceiro em álbum de 2011. Essa africanidade justifica a lembrança de Coisa nº 2 (1963), tema instrumental do compositor e maestro pernambucano Moacir Santos (1926 – 2006) levado por Bosco nos vocalizes e no violão de toque sempre personalíssimo.


Choro abolerado, Nenhum futuro (João Bosco e Francisco Bosco) anuncia com desesperança o despencar do céu nacional em tom lacrimoso realçado pelo solo do clarinete de Anat Cohen. Contudo, Mano que zuera se desvia do terreno pantanoso da política panfletária e tampouco procura esboçar retrato do Brasil. Com timbragem sedutora, o álbum é, sobretudo, um recorte majestoso da atual produção autoral do compositor, capaz de oferecer maravilhas contemporâneas como a música-título Mano que zuera, mais uma composição com letra de Francisco Bosco, parceiro sagaz que – verdade seja dita – fez com que a obra de Bosco caminhasse sem que a presença já rara ou mesmo a ausência de Aldir Blanc fossem sentidas. Não foram.


Sim, já houve safras mais inspiradas de canções em discos anteriores. Mas Bosco, jovial, vem sempre procurando novos caminhos e segue impávido por estrada que, 45 anos após a estreia em disco, ainda sinaliza muito futuro para este senhor compositor de 71 anos. (Cotação: * * * * 1/2)


(Créditos das imagens: capa do álbum Mano que zuera. João Bosco em fotos de Flora Pimentel)

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