Trilha de ‘Filme’ de Braun e Zampier se escora em climas e em referências


Filme, álbum que reúne a gaúcha Cris Braun com o alagoano Dinho Zampier, apresenta a trilha sonora de longa-metragem imaginário. No caso, uma trilha que seduz mais pelos climas do disco independente – ora lançado em CD com distribuição da Tratore, três meses após a edição digital disponibilizada em julho deste ano de 2017 – do que pelas músicas em si.


Nessa trilha, temas instrumentais como Água branca (Dinho Zampier) – de toque percussivo que evoca longinquamente o universo sonoro do grupo mineiro Uakti – e Doña Rita de Quevedo (Cris Braun, Dinho Zampier e Fernando Fiúza) ajudam a pavimentar o caminho por onde passam referências e evocações a mestres dos sons de cinema, com a ressalva de que Doña Rita de Quevedo também é ouvida em Filme em registro cantado.


Se a canção em inglês Wedding (Cris Braun e Dinho Zampier) transita por trilho pop folk, nos toques do violão e do ukelele orquestrados por Toni Augusto, Cheio (Billy Brandão e Marcos Saboya) tem recitadas por Braun as palavras que compõem a concreta letra-poema. Cheio é faixa formatada pelo guitarrista Billy Brandão, assim como Harpia (Cris Braun e Fernando Fiúza) tem produção do tecladista Sacha Amback e levada que remete ligeiramente às trilhas de western spaghetti do compositor italiano Ennio Morricone.


Mas o álbum em si foi produzido por Braun com Zampier neste improvável encontro, embora os artistas, ambos residentes na cidade de Maceió (AL), sejam amigos há tempos. A ponto de ele ter tocado no último disco dela, Fábula (2012), lançado há cinco anos. A improbabilidade é por conta dos distintos universos musicais em que ambos transitam. Cantora desde 1985, Braun foi vocalista do Sex Beatles – grupo carioca da década de 1990 de cujo repertório Filme rebobina a música Escorpiões (Alvin L, 1994) – e lançou há 20 anos o primeiro álbum solo, Cuidado com pessoas como eu (1997), pelo fugaz selo Fullgás, de Marina Lima. Já Zampier é integrante da banda Mopho e metade da dupla Figueroas, voltada para ritmos caribenhos como a lambada.


Juntos neste Filme, eles se harmonizam em temas como Prantinho (Cris Braun), canção que encerra álbum que soa como curta-metragem pelos meros 22 minutos de duração. Tempo suficiente para o ouvinte perceber que a trilha sonora do imaginado filme tem como trunfo a sonoridade criada para as oito composições inéditas apresentadas em 11 faixas. Talvez por isso mesmo, a edição em CD de Filme desperdice um dos lados do pôster-encarte sem reproduzir as letras das músicas… (Cotação: * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Filme, de Cris Braun & Dinho Zampier. Capa criada por Mariana Ochs a partir de foto de Henrique Oliveira)

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