Eternamente blue (Sueli Costa e sobrinha e velha amiga e amigos)

Eu poderia estar aqui domingando, e meio que trabalhando com recentes lançamentos digitais que me aguardam, mas, voltei a discos que repousavam na estante há tempos. Recheados de pérolas como “Coração ateu”, “Dentro de mim mora um anjo”, “Vida de artista”, “Encouraçado”, “Medo de amar nº 2”, “Face a face”, “Canção brasileira”, “Alma”, “Violão”, “Jura secreta”, “Quem ama sabe”…. Todas de Sueli Costa (e um fabuloso naipe de parceiros letristas) e que tanto brilharam, ontem à noite, na Sala Baden Powell, no show comemorativo dos 50 anos de carreira dessa compositora e pianista singular.

Aos 74 anos, Sueli é menos cantora ainda do que nos seus raros, deliciosos e profundos discos, mas, por isso mesmo, está muito bem acompanhada pelas perfeitas intérpretes que são sua sobrinha Fernanda Cunha (que, como comentei ontem, é responsável pelo mais revelador tributo a Jobim no ano de seus 90, disco concentrado em músicas e letras apenas de Tom) e uma contemporânea, Áurea Martins (que, aos 77 anos, continua com uma das maiores e mais desconhecidas vozes brasileiras).

As três mais três afiados instrumentistas: Zé Carlos (violão precioso, solista inventivo, que faz jus ao instrumento desenhado por Sueli e Paulo César Pinheiro numa das canções da noite), Berval Moraes (contrabaixo) e Helbe Machado (bateria).

Trio de músicos que aguardou por minutos que começaram a intrigar o público a entrada em cena da personagem central. Desengonçada, tipo lesada, Sueli senta ao piano e bota ordem em seu peculiar mundo com “20 anos blues”, parceria com Vitor Martins, sucesso na voz de Elis: “Ontem de manhã quando acordei /Olhei a vida e me espantei /Eu tenho mais de 20 anos / E eu tenho mais de mil perguntas sem respostas/ Estou ligada num futuro blue”.

Prossegue com mais canções existencialistas, muitas delas baseadas em blues, lentas e envolventes. Como a segunda, “Vida de artista”, gravada por Gal, uma das muitas parcerias com Abel Silva, autorretrato que cabe em tantas faces: “O que é uma vida de artista / No mercado comum da vida humana / Um projeto de sonho inocente…”.

Áurea e Fernanda entram em cena e o retrato da artista enquanto eternamente 20 anos blue fica mais completo. Musicalidade agora em sua plenitude e também carinhosas inconfidências sobre os bastidores. Não fosse o poder de convencimento de Abel, dez minutos antes do horário marcado para o show, Sueli teria vazado para pegar o vestido escolhido para a noite especial e esquecido no apartamento. Graças a outros talentos de Áurea, que contou andar com kit básico na bolsa, um figurino sóbrio e elegante botou a artista novamente nos eixos. Como também ficamos sabendo, dessa vez contado por Sueli, as duas foram colegas, professoras no ginásio estadual André Maurois, no Leblon. Portanto, um viva às professoras no dia que é delas!

Show que merece rodar muito mais, repertório que é colar de pérolas, Sueli e parceiros. Além dos citados acima, têm sido muitos, incluindo gente que já partiu como Cacaso e Tite de Lemos.

Mas, para fechar, escolho uma com letra da própria, “Coração ateu”, que ela cantou solo. Foi uma das minhas portas de entrada ao universo de Sueli graças à gravação da religiosa Bethânia, mas que adoro também na gravação da compositora (no seu LP estreia, em 1975, cuja capa de Cafi e Ronaldo Bastos copiei e colei): “O meu coração ateu quase acreditou /Na tua mão que não passou de um leve adeus / Breve pássaro pousado em minha mão / Bateu asas e voou/ // Meu coração por certo tempo passeou / Na madrugada procurando num jardim / Flor amarela, flor de uma grande espera / Logo meu coração ateu //. Se falo em mim e não em ti / É que nesse momento já me despedi / Meu coração ateu não chora e não lembra / Parte e vai-se embora”.

PS: Faço sem acreditar em listas de melhores, mas, percebo que acertei, quase dois anos atrás, quando, para reforçar meus aplausos ao último disco de Fátima Guedes, criei um top 5 de compositoras em atividade: Dona Ivone Lara, Rita Lee, Sueli Costa, Marina Lima e a já citada Fátima.


Crédito imagens: capa de disco (reprodução); e, precárias, feitas com o celular, Sueli Costa e Fernanda Cunha & Áurea Martins (ACM).

Deixe uma resposta