Eric Voegelin investiga a cumplicidade dos alemães com o nazismo

Na vastíssima literatura sobre o nazismo, “Hitler e os alemães” (É Realizações, 368 pgs. R$ 74,90) ocupa um lugar à parte. Não se trata de um ensaio histórico, embora o texto esteja bem fundamentado em sólida pesquisa; nem de um volume de memórias, embora seu autor tenha sido testemunha ocular da ascensão de Hitler, em 1933, e de seus primeiros anos no poder; nem tampouco de um estudo sociológico, embora a análise do papel da sociedade alemã nesse capítulo sombrio do século 20 atravesse todo o texto.

O livro do filósofo Eric Voegelin é um pouco de tudo isso, mas é principalmente um convite à reflexão sobre as raízes psicológicas e emocionais do mal na política e sobre a responsabilidade dos indivíduos nesse processo. Seu tema é a cumplicidade de parte significativa do povo e das elites intelectuais da Alemanha com os crimes cometidos pelo regime nacional-socialista.

Nesse sentido, é uma leitura urgente e atualíssima em um período de crise política na qual muitos indivíduos abdicam voluntariamente de sua consciência crítica para aderir a um pensamento de manada, diluindo-se na massa. Como Elias Canetti em “Massa e poder”, Voegelin, tendo ele próprio vivido em primeira mão essa tragédia coletiva, evita a atitude de superioridade moral comum a muitos intelectuais, para incluir a si próprio no exame crítico da responsabilidade dos alemães – aí incluídos filósofos e pensadores de destaque – pelo destino de sua nação.

Depois de se mudar da Alemanha para a Áustria, onde lecionava na Universidade de Viena, Voegelin optou por se exilar nos Estados Unidos em 1938, quando a primeira edição de seu livro “As religiões políticas” foi apreendida pela Gestapo. Retomou sua carreira acadêmica em seu país natal 20 anos depois, quando fundou o Instituto de Ciências Políticas de Munique. Foi lá que, no verão de 1964, proferiu as conferências reunidas em “Hitler e os alemães”, uma análise rigorosa da cultura alemã de seu tempo e das condições de emergência do Nazismo.

Voegelin rejeita a tese convencional que apresenta os indivíduos como indefesos diante de mecanismos de manipulação e intimidação do poder: para ele cada indivíduo sempre poderá escolher entre agir de modo moral e imoral. Atenção particular é dada ao papel de intelectuais e acadêmicos importantes que, por meio de diferentes mecanismos psicológicos, se recusaram a perceber a monstruosidade que se estava gestando (como Ernest Schramm, respeitado professor de História medieval, além dos casos mais famosos de Martin Heidegger e Carl Schmitt). Pode-se estabelecer aqui, aliás, um paralelo com outro ensaio clássico sobre a dimensão psicológica do totalitarismo – “A mente cativa”, de Czeslaw Milosz, que analisa a escravização psicológica de intelectuais pelo regime comunista polonês.

O elemento diferencial da análise de Voegelin é, precisamente, descartar a ideia abstrata, comum entre historiadores, da “culpa coletiva”, que acabou se tornando uma resposta fácil e escudo contra qualquer responsabilização – já que culpar a todos significa não culpar ninguém. Faz eco, nesse sentido, à linha adotada por Hannah Arendt em suas clássicas análises sobre a “banalidade do mal” e os “massacres administrativos”, que na prática dispensaram os alemães comuns de um autoexame de consciência e permitiram que também eles se enxergassem como vítimas.

Refletindo sobre os laços de representação e identificação entre um povo e seus governantes, Voegelin sugere que Hitler triunfou por representar a decadência moral da Alemanha dos anos 30. Em outras palavras, seu êxito se deveu não às suas características excepcionais, mas ao fato de ele sintetizar e refletir os anseios do alemão comum em uma época de mediocridade e degradação. Talvez o mesmo se possa dizer da persistência da popularidade de um certo político brasileiro.

Deixe uma resposta