Pai e filhos; irmã-tia; e o não sobrinho

Em tempos de intolerância, perseguição religiosa, preconceito, ameaça ao estado laico e à liberdade de expressão e demais mazelas do Brasil sob golpe que prossegue, “Fevereiros”, novo documentário de Marcio Debellian sobre Maria Bethânia, chega no momento preciso. Sem ser panfletário, exibe argumentos e exemplos de sobra de sincretismo religioso para serem esfregados nas caras de velhos e novos fascistas. Basicamente, o filme (que estreou na noite desta quinta-feira no Festival do Rio) acontece entre a Santo Amaro natal, onde todos os verões a cantora participa dos festejos para Nossa Senhora da Purificação, e a quadra da Mangueira e a Sapucaí, acompanhando a criação e o desfile do enredo “Maria Bethânia: A menina dos olhos de Oyá”, que garantiu à escola verde-e-rosa a vitória no carnaval de 2016. Depoimentos da cantora, de dois de seus irmãos, Caetano e Mabel Veloso, do carnavalesco Leandro Vieira e do historiador Luiz Antônio Simas estão entre os que completam o fascinante mosaico oferecido por “Fevereiros”. Este o mês preferido de Bethânia que, como no samba de roda lembrado por ela… “eu trabalho o ano inteiro pra passar fevereiro em Santo Amaro”.

Cidade do Recôncavo Baiano na qual o sincretismo religioso sempre se fez presente, Bethânia trocou Santo Amaro pelo Rio há mais de cinco décadas, mas nunca cortou as raízes. Como Mabel comenta, mesmo depois da morte da mãe (aos 105 anos, em dezembro de 2012), a casa de Dona Canô continua sendo uma referência não só para filhos, netos e bisnetos como para as festas locais. Sejam religiosas (católicas ou de candomblé) ou carnavalescas.

A religiosidade, por sinal, seria uma das diferentes marcantes entre ela e o irmão quatro anos mais velho, este, hoje se dizendo um sem religião e ex-ateu. Em caso de sincronicidade, na quarta (11/10), véspera da sessão de “Fevereiros”, tínhamos assistido ao show
“Caetano Moreno Zeca Tom Veloso”, que, até 25 de outubro, ocupará as terças e quartas no Theatro Net Rio. Foi nele que, antes de cantar “Ofertório” (tema religioso que escreveu para uma missa celebrando os 90 anos que Dona Canô completou em 1997), Caetano comentou sobre as escolhas dos filhos: os dois mais novos, Zeca (25) e Tom (20), são “cristões convictos”; o mais velho, Moreno (44), ligado ao candomblé e ao budismo, e também o responsável para o ainda não religioso pai passar a admitir a existência de algo próximo a um deus. Alguma “Força estranha” como na canção que fez para Roberto Carlos e depois regravada por tantos e, agora, apresentada a quatro vozes.

Antes de mais impressões sobre o encontro de pai e filhos no palco, ainda em “Fevereiros”, Caetano conta que, em meados dos anos 1970, Julio Cortazar teria dito que ele e Bethânia seriam uma só pessoa. Mas, se o comentário do escritor argentino podia ser entendido como uma brincadeira, na mesma época e falando sério, a ialorixá Mãe Menininha do Gantois afirmou o mesmo.

Em tempos de intolerância, etc…, mesmo sendo um sem religião de berço até hoje descrente dos deuses utilitários nas mais diferentes vertentes, percebo um quê de verdade nas conclusões a que chegaram Cortazar e a grande mãe-de-santo baiana. Então, um viva às tradições afro religiosas, que, como o carnavalesco Leandro Viera comenta, estão entre as bases para o samba. Por sinal, o carnaval carioca de 2018, ameaçado pelo bispo travestido de prefeito, vai ser também um campo de discussão. E, como já anunciou, a Estação Primeira de Mangueira vai partir para o bom combate, exaltando a diversidade e a liberdade de expressão.


@@@@@Pai e filhos cantando

A crise de valores se aprofunda no Brasil, e no mundo (como o anúncio de que EUA e Israel saíram da Unesco prova), mas os Veloso passam ao largo dessas questões em seu show. É um sarau carinhoso, com Caetano ao violão e os filhos sempre trocando de lugar no palco e se revezando em violão, piano elétrico, baixo e, estes ambos com Moreno, violoncelo e a percussão de prato e faca usada nos sambas de roda do Recôncavo Baiano.

Vozes unidas ou solos de cada passeando por um repertório que inclui clássicos de Caetano (“Alegria, alegria” na abertura e, entre outras, “Oração ao tempo”, “Genipapo absoluto”, “O leãozinho”, “A tua presença”, “Gente”, “Trem das cores”…) e canções de cada um deles. Filhos confirmando o DNA musical em, entre outras, “Todo homem” (de Zeca, que canta num falsete caetânico no limite do tolerável), “Clarão” (Tom) ou “De tentar voltar” (Moreno e Domenico Lancellotti). Há lugar também para outros autores: a segunda música no roteiro é “O seu amor”, que Gilberto Gil escreveu em 1976 para o show dos Doces Bárbaros; enquanto, no fim, Moreno retoma um tema do Olodum, “Deusa do amor” (Adailton Poesia e Valter Farias), que gravara em seu primeiro álbum, “Máquina de escrever música” (2000); e, no bis, os quatro voltam com o samba “Tá escrito” (Xande de Pilares, Carlinhos Madureira e Gilson Bernini).

Projeto que funciona melhor em teatros pequenos como o de Copacabana e que deverá crescer na estrada para, provavelmente, virar disco.


@@@@@Ed Motta e seu bailão sem concessões

Na segunda-feira, conferimos o “Baile do flashback”, de Ed Motta, que lotou a Sala Baden Powell em Copacabana. Muita gente não conseguiu ingresso e vai ter que aguardar até o dia 27 de outubro, quando o show voltará ao Rio, no Imperator. Vale insistir para ver, pela primeira vez na carreira, Ed cantando músicas que tocaram muito nas rádios cariocas (e continuam rodando na programação de algumas FMs ) e fizeram sua cabeça durante a adolescência. Vai do Earth, Wind & Fire (“Can’t hide love”) a Gino Vanelli (“Living inside myself”, esta, já incluída no bis da turnê do último álbum, “Perpetual gateways”), passando por Stevie Wonder (“Ribbon in the sky”) e Dionne Warwick (“I’ll never love this way again”).

Há lugar também para alguns de seus sucessos, incluindo “Manuel”, “Vendaval”, “Daqui pro Méier”, “Colombina” e “Fora da lei”, interpretados com o vozeirão habitual, agora com uma nova e poderosa banda, comandada pelo tecladista e diretor musical Michel Lima, mais o baixista Fernando Rosa, o guitarrista Thiago Arruda e o baterista Cleverson Silva. Na noite de segunda, pelo menos no balcão da Sala Baden Powell onde estávamos, a equalização do som deixou a bateria muito alta, encobrindo em muitos momentos a voz e o restante do instrumental, mas é para ver e rever.

Em princípio, essa seria a oportunidade para Ed atender o pedido de muita gente e também botar no roteiro algum sucesso do tio. Mas, “o sobrinho do Tim” não caiu na armadilha e, como comentou durante o show, “só por muito dinheiro!”. Dá para entender. Tim Maia é genial, mas Ed seguiu por outras rotas e continua.

Crédito imagens: Bethânia na Mangueira (Divulgação do filme “Fevereiros”); Zeca, Caetano, Moreno e Tom (ACM), Bethânia e Caetano nos Doces Bárbaros (ACM), Caetano, Tom e Moreno (ACM), Caetano (ACM), Ed Motta e banda (ACM).

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