‘Fevereiros’ liga Santo Amaro ao Rio baiano para ir além do que se vê


Em 1994, Caetano Veloso sentenciou que o Rio é mais baiano na Mangueira em verso de samba lançado na voz de Alcione, cantora maranhense e mangueirense. Em Fevereiros, documentário em cartaz até amanhã em sessões programadas dentro da 19ª edição do Festival do Rio, o diretor Marcio Debellian liga esse Rio baiano e verde-e-rosa às cores vivas da interiorana cidade de Santo Amaro da Purificação (BA), no Recôncavo. A ponte é feita através da cantora baiana Maria Bethânia, cuja fé sincrética é o elo desse emocionante filme realizado pela Debê Produções e viabilizado através de parceria entre a Globo Filmes, a GloboNews e o Canal Brasil.


Assinado por Debellian com Diana Vasconcellos, o roteiro entrelaça imagens dos rituais religiosos de Santo Amaro, cidade natal de Bethânia, com takes dos preparativos do desfile campeão da escola de samba Mangueira no Carnaval de 2016. Além das imagens do desfile em si, entrevista com o carnavalesco da agremiação, Leandro Vieira, contextualiza o enredo Maria Bethânia – A menina dos olhos de Oyá com os signos, símbolos e orixás das religiões afro-brasileiras que também pulsam em Santo Amaro, cidade que recebeu negros escravizados vindos da África e que tem a primazia de ser a única cidade do Brasil que celebra desde 1889, na festa Bembé do Mercado, a abolição da escravatura em 13 de maio – como ressalta Caetano Veloso com orgulho em entrevista que conduz o filme ao lado de elucidativo depoimento da própria Bethânia.


O roteiro e a edição (também de Diana Vasconcellos) mixam bem imagens de arquivo com entrevistas inéditas e com takes das festividades religiosas e do desfile da Mangueira, sem deixar o filme perder ritmo. Imagens raras da cantora em rodas de samba dos anos 1970 mostram como Bethânia põe no samba a mesma fé que cultua no Candomblé e na católica festa de Nossa Senhora da Purificação, realizada anualmente em Santo Amaro entre janeiro e 2 de fevereiro. A cantora extrai risos da plateia quando conta que, na infância, Caetano diluiu o medo que ela sentia de Deus – punitivo, na visão católica recebida pela menina Bethânia – no momento em que o mano Caetano, ateu desde sempre, sentenciou que ele, Caetano, era Deus.


A congelante expressão facial de Chico Buarque em cena de 1975, após explicações de Bethânia sobre as conexões e relações de alguns orixás, também provoca risos. Contudo, embora tenha eventual humor, Fevereiros é filme pautado pela emoção e pela opção por realçar uma ancestralidade que sobrevive tanto em Santo Amaro quanto nas alas das baianas das escolas de samba do Rio. O canto de Bethânia (“Voz de cobre”, como caracteriza Caetano com emoção) ressoa em músicas como Salve as folhas (Gerônimo e Ildásio Tavares, 1989) e Yayá Massemba (Roberto Mendes e José Carlos Capinam, 2003) – ambas ouvidas em gravações do álbum Brasileirinho (2003) – que cultuam essa ancestralidade, elo perene entre o Brasil e a mãe África.


Tal culto gerou o samba, do qual Bethânia se revela devota fervorosa, elencando compositores-ídolos, sobretudo o mórbido romântico Nelson Cavaquinho (1911 – 1986). Ao longo desse desfile de signos e símbolos religiosos, Fevereiros cumpre até a função de um filme político em novos tempos de intolerância religiosa. Mas o combate à intolerância é feito com o olhar afetuoso que lança sobre o samba e os cultos afro-brasileiros. Universos que volta e meia se fundem como no desfile campeão da Mangueira que exaltou em 2016 a religiosidade de Bethânia.


Acima de tudo, Fevereiros foca algo além do que se vê e do que (muitos) olhos não conseguem perceber. Indo além do sentido poético de versos do samba Sei lá, Mangueira (Paulino da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, 1969), ouvido na voz de Caetano Veloso ao fim do documentário, cabe dizer que Fevereiros é filme tão grande na exposição da fé entranhada entre Santo Amaro e o Rio mais baiano, que nem cabe mais explicação… (Cotação: * * * * *)

(Créditos das imagens: Maria Bethânia em fotos de divulgação do filme Fevereiros. Cartaz do filme Fevereiros)

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