Filme foca o sexo, o rock e a liberdade de Serguei com tom ‘trash’ e rústico


Nem a explícita cena de sexo oral feita por Serguei com modelo masculino – ao som de Lindo anjo (1991), rock composto por Marcelo Xavier a partir de letra pedida por Serguei a ninguém menos do que Ney Matogrosso – soa tão reveladora quanto os depoimentos das cantoras Alcione e Angela Maria sobre as respectivas participações de ambas na vida deste lendário artista carioca. A cena e os depoimentos são exibidos em Serguei – O último psicodélico, documentário de Ching Lee e Zahy Tatá apresentado na 19ª edição do Festival do Rio.


Artificial, a cena de sexo foi produzida para o filme. Os depoimentos da Marrom e da Sapoti também foram dados diante de câmeras operadas sem apuro estético pela produção independente desse filme que cumpre, com ar trash, a missão de focar o rock, o sexo e a liberdade do cantor Sérgio Augusto Bustamante, uma lenda e um pioneiro do rock brasileiro, nascido há quase 84 anos (a serem festejados em 8 de novembro deste ano de 2017).


Há excessos no roteiro assinado por André Lobato com Elida Braz. A ênfase recorrente em falas redundantes que expõem a personalidade libertária do artista e as cenas em que uma narradora salpica dados biográficos de Serguei – caracterizada como Eva, enfermeira e hippie, entre outros arquétipos e estereótipos – poderiam ter cedido a vez para os pouco ou nada explorados encontros promovidos pela produção do filme entre o roqueiro com artistas como Angela RoRo e Ney Matogrosso. O encontro com Alcione, sobretudo, somente é revelado quando é mostrada nos créditos finais uma foto recente dos dois, tirada na mesma locação em que a a cantora deu o depoimento dela.


Alcione, a propósito, viveu com Serguei uma das mais saborosas histórias alinhadas no roteiro do filme. A Marrom conta que na época em que ambos cantavam na noite, em fevereiro de 1970, eles se depararam na orla do bairro de Copacabana com ninguém menos do que Janis Joplin (1943 – 1970), cantora norte-americana que estava no Brasil para se recuperar do vício em bebidas e drogas. Só que Janis acabou bebendo todas, sobretudo vodca, quando foi levada por Serguei para a boate Porão 73, no Leme, bairro vizinho de Copacabana. Na boate, chamada de Porão 71 por Alcione no filme em lapso de memória, Janis deu canja e eletrizou a plateia.

Bem antes desse episódio pitoresco, Angela Maria conta que era servida por Serguei nos aviões em que ele, comissário de bordo, paparicava a estrela da canção. Encerrado com inédito clipe da música Eu sou psicodélico (1968), produzido para o filme talvez para justificar o título, o documentário Serguei – O último psicodélicocostura depoimentos de Erasmo Carlos (“Serguei é um anárquico”, sentencia o Tremendão) e Michael Sullivan com imagens de arquivo que confirmam e legitimam o que é dito na tela.


Há imagens de bastidores da casa carioca de shows Circo Voador, um dos templos do rock no Rio, que mostram Serguei em cena com o amigo guitarrista Celso Blues Boy (1956 – 2012) e no camarim com a banda Barão Vermelho. Integrantes da formação original desse stoniano grupo carioca, Roberto Frejat, Guto Goffi e Dé Palmeira compuseram o rock Coleção de vícios especialmente para ser gravado por Serguei no álbum de 1991 que realimentou discografia iniciada em 1966 e que, a rigor, sempre chamou mais atenção pela atitude irreverente do cantor do que pela música em si.


Nesse ano de 1991, Serguei também brilhou na segunda edição do festival Rock in Rio em show do qual o filme rebobina o número em que o cantor celebra Janis Joplin ao cantar Summertime (George Gershwin e DuBose Heyward) no meio do público. Com rústico acabamento estético que denuncia os problemas financeiros enfrentados pela produção independente da Tupinambá – Filmes da Amazônia, o documentário também foca Serguei na cidade fluminense, Saquarema (RJ), em que escolheu morar e onde ergueu o museu intitulado Templo do rock.


Mas nada no roteiro – nem a cena de explícito sexo oral (até natural na vida de quem, na juventude, escandalizou a polícia carioca ao beijar homem em praça pública) e tampouco os depoimentos de Alcione e Angela Maria – soa tão revelador da personalidade do artista como a cena em que Serguei chora, diante do relógio da Central do Brasil, ao lembrar do falecido pai, Domingos Bustamante, do qual cuidou com zelo na fase final da vida, com carinho igualmente dedicado à mãe, Maria. Além do rock e do sexo, Serguei – O último psicodélico também foca os afetos do lendário Sérgio Augusto Bustamante. (Cotação: * * *)


(Créditos das imagens: cartaz do filme Serguei – O último psicodélico. Serguei em foto de divulgação do filme)

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