Filme expõe a galeria de (des)amores, fracassos e contradições de Timóteo


Em vez de documentar a vida e obra de Agnaldo Timóteo em tons biográficos, o filme Eu, pecador traça ácido perfil desse polêmico cantor, compositor e político mineiro nascido na interiorana cidade de Caratinga (MG) há 81 anos – idade que será festejada pelo artista na próxima segunda-feira, 16 de outubro. Com ágil sequência de cenas encadeadas pelo montador Rodrigo Pastore, em mix de imagens inéditas (que incluem números musicais orquestrados por Thiago Marques Luiz, diretor musical do filme) e takes oriundos dos arquivos de emissoras de TV, o sétimo longa-metragem do cineasta carioca expõe a galeria de amores, desafetos, fracassos e contradições de Timóteo.


Estreado ontem na 19ª edição do Festival do Rio, o filme extrai risos da plateia pelas opiniões exaltadas e paradoxais do artista enfocado na tela. É impossível não rir quando Hoineff alinha, em sequência, imagens de vários momentos em que Timóteo ataca furiosamente João Gilberto, o cantor que “não canta nada” no juízo feito por Timóteo sob a ótica redutora da potência vocal. As alterações de juízo sobre o caráter de políticos como Paulo Maluf também divertem o espectador.


Contudo, o riso funciona em Eu, pecador como o antídoto que dilui (um pouco) a sensação de que o filme é cruel ao expor as fragilidades e frustrações de Timóteo. O próprio título Eu, pecador reproduz nome de música de 1977 composta pelo artista com alusões culpadas (mas nunca assumidas explicitamente) à vivência da homossexualidade. Se a política ocupa boa parte do filme, a ponto de cansar o espectador com imagens repetitivas da campanha feita por Timóteo em 2016 para se eleger vereador na cidade do Rio de Janeiro (RJ), a sexualidade do cidadão Agnaldo Timóteo Pereira é exposta com crueza e com certa crueldade neste filme em que, pela primeira vez, o artista ousa dizer os nomes de alguns amores.


Colaborando com a exposição, o artista chora ao cantar Passarela da minha vida, música inédita composta com letra explícita para caso de amor que durou 20 anos e deixou feridas ainda abertas. Também presente no roteiro do filme, com direito à lágrimas ao fim da interpretação, Ciúme louco (Agnaldo Timóteo, 1989) é outra música inspirada por amor do passado. “Gosto de sexo”, sentencia Timóteo neste filme que evidencia o orgulho negro do compositor de Galeria do amor (1975).


Sem demonstrar afeto pelas personagens captadas pelas câmeras que comanda sem rigores estilísticos, Nelson Hoineff joga os sentimentos de Timóteo em praça pública. A cena final do filme, captada por câmera escondida no quarto de Timóteo, retrata bem a mão pesada do diretor deste filme viabilizado através de parceria entre a produtora Comalt e o Canal Brasil. Não há cena de sexo no quarto, mas a constatação de derrota política na eleição de 2016 – perdida com meros 4,5 mil votos, cerca de 1% da votação obtida na consagradora eleição de 1982 – e de uma solidão que desconsola o artista, provocando choro e amargura.


É nesse quadro desolador, ao som da gravação de A solidão me apavora (Wagner Montanheiro e Eliane, 1975), que Hoineff arremata o recorte cinematográfico de Timóteo. O filme Eu, pecador pode até ser perdoado pela redundância das imagens da campanha política de Timóteo e pelo erro nos créditos finais que atribuem a Timóteo a autoria de Tortura de amor (1962), a música mais bela do cancioneiro autoral do cantor e compositor baiano Waldick Soriano (1933 – 2008). Mas jamais merece a absolvição pela frieza cruel e corrosiva com que expõe na tela uma personalidade já em si tão passional e contraditória como Agnaldo Timóteo. (Cotação: * * *)


(Crédito da imagem: Cartaz do filme Eu, pecador, de Nelson Hoineff)

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