Aos 88 anos, Angela canta até o ‘Rei’ em show sem perder porte de rainha

O título do show, Angela Maria e as canções de Roberto & Erasmo, faz supor roteiro calcado somente na obra em parceria dos compositores Roberto Carlos e Erasmo Carlos – tal como o disco lançado em maio deste ano de 2017 pela cantora fluminense. Mas é claro que Angela Maria não pode fazer show sem cantar as canções que não compôs, mas que tornou imediatamente dela quando as lançou nos dourados anos 1950, década áurea em que reinou na preferência popular como a grande cantora da era do rádio, ombreada somente por outra diva imortal da época, Dalva de Oliveira (1917 – 1972).


Após atravessar gerações, períodos de ostracismo e eventuais voltas às paradas, a Sapoti pisou no palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro na noite de sábado, 7 de outubro, com o mesmo porte de rainha de outrora e começou o show com Vida de bailarina (Chocolate e Américo Seixas, 1953), uma das canções que, sim, já são dela. Aos 88 anos de vida e 68 de carreira, como a própria cantora frisou orgulhosamente em cena, Angela já perdeu parte da potência e do alcance da voz de mezzo-soprano. Mas a voz ainda está lá, nobre, cheia de classe, encorpada pelos graves do tempo.


Show orquestrado com direção e roteiro de Thiago Marques Luiz, Angela Maria e as canções de Roberto & Erasmo é espetáculo no sentido amplo da palavra. Bela iluminação valorizou a cena emoldurada por projeções de imagens da cantora em diversas fases da longa trajetória. Contudo, Angela Maria é o próprio espetáculo. A simples presença da artista no palco já bastaria para seduzir a plateia de meia-idade que encheu o teatro mais nobre da cidade do Rio de Janeiro (RJ) para rever a vitalícia rainha do rádio.


Sem jamais perder a pose, Angela regeu o coro de súditos em Lábios de mel (Waldir Rocha, 1955) e em Ronda (Paulo Vanzolini, 1953), além de, sim, ter tornado delas as canções de Roberto e Erasmo. Após enfatizar o verso “Eu voltei” de O portão (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1975) para valorizar o retorno aos palcos cariocas, Angela transformou Não se esqueça de mim (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1977) em abolerado pedido para que seja sempre lembrada pelo público ali presente.


Entre uma música e outra, a cantora acentuou o tom lacrimoso de Desabafo (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1979). Porque Angela chora cantando. Ou canta chorando. Por isso, Gente humilde (Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque, 1969) – cujo tom melancólico foi sublinhado pelo toque de flauta ouvida já na introdução do número – mais uma vez se ajustou perfeitamente ao canto da Sapoti.

Como poucas vozes do Brasil, Angela sabe cantar as melodias de dramas existenciais contidas em letras sentimentais como a de Balada triste (Douglas Vegeler e Esdras Pereira da Silva), pérola de roteiro que somente perdeu a imediata conexão com a plateia em Estava escrito (Lourival Faissal, 1954), talvez porque esse grande sucesso de Angela tenha perdido força ao longo dos tempos na memória popular.


Musicalmente, merece menção honrosa o arranjo em clima de big-band que reacendeu Fósforo queimado (Paulo Menezes, Milton Legey e Roberto Lamego, 1953), evocando os salões dos anos 1950. A já mencionada Ronda foi feita com arranjo que esboçou o andamento de tango e preparou o clima para Tango pra Tereza (Jair Amorim e Evaldo Gouveia, 1975), um dos raros grandes sucessos da cantora nos anos 1970, década em que Angela voltou às paradas após enfrentar fase de ostracismo e começar a apagar o carimbo de cafona com que os cantores do rádio foram marcados nos anos 1960.


Mais para o fim, o show alcançou pico emocional quando se ouviu, em off, a voz de Cauby Peixoto (1931 – 2016) em Como é grande o meu amor por você (Roberto Carlos, 1967). O duo virtual deu a sensação de que Cauby cantava do além nesse reencontro com a grande parceira de cena. O esfumaçado número foi pretexto para discurso de Angela em exaltação ao amigo (fã do filé na manteiga que Angela lhe preparava, como a cantora confidenciou em cena) e para a exibição no telão de imagens do cantor fluminense.


Na sequência, O show já terminou (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1973) e Despedida (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1974) prepararam o público para o fim do show. Mas Angela Maria é, claro, não saiu de cena sem arriscar os agudos do mambo Babalu (Margarita Lecuona, 1939), carro-chefe do repertório da artista. Só que o show teve bis, claro.


Feito sem a saída da cantora do palco, o bis começou com dueto com o cantor Márcio Gomes em Ave Maria no morro (Herivelto Martins, 1942), número pautado pela opulência vocal, e fechou com Retalhos de cetim (Benito Di Paula, 1973), samba que soou deslocado para fechar de fato esse belo show em que Angela Maria cantou até canções do Rei Roberto sem perder o porte de rainha. (Cotação: * * * *)


(Crédito da imagem: Angela Maria em fotos de Mauro Ferreira em show no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 7 de outubro de 2017)

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