EP eletriza somente quando Daniela toma banho de cheiro de Dona Onete


Em vez de lançar single com recriação de Banzeiro, música de Dona Onete que batizou em 2016 o segundo álbum dessa cantora e compositora paraense de carimbós e boleros sensuais, Daniela Mercury apresenta o EP Tri eletro com três gravações inéditas. De todo modo, a abordagem de Banzeiro é a melhor faixa do disco disponibilizado hoje, 6 de outubro de 2017, nas plataformas digitais.


O eletrizante arranjo criado pela artista baiana com Yacoce Simões traz a composição de Onete para o universo do frevo, com toque de galope, potencializando a pegada já originalmente carnavalizante dessa música que tem cacife para se tornar um dos sucessos do Carnaval de Salvador (BA) em 2018. Atores da Cia. Baiana de Patifaria participam do refrão, turbinando a alegria da gravação.


Com título que já sugere a miscigenação do baticum afro-pop-baiano dos trios elétricos com beats eletrônicos, fusão feita de forma pioneira pela própria Daniela ao longo dos anos 2000, o EP Tri eletro é o primeiro disco de estúdio da cantora e compositora desde o verborrágico álbum autoral Vinil virtual (2015), lançado há dois anos sem a repercussão esperada pela artista.


A verborragia do disco de 2015 reverbera na primeira das três músicas do EP, Samba presidente, pagode que tem música e letra assinadas por Daniela. Alinhando exaltações ao samba em letra que cita verso de música de Chico Buarque (“Eu faço samba e amor até de madrugada”, de Samba e amor / 1969), o pagode acaba soando prolixo e cansativo lá pelo terceiro minuto da gravação que totaliza quatro minutos e 30 segundos. O arranjo percussivo do baticum eletrônico é criação de Marcio Victor, voz do grupo de pagode Psirico. Victor toca na gravação e faz vocais na parte final, quando o pagode adquire tons politizados e flerta com a prosódia do rap em versos como “A cidade entristecida dança enfeitiçada e se esquece da miséria cultivada”.


Na terceira música do EP, Eletro Ben Dodô (Lucas Santtana e Quito Ribeiro), a miscigenação rítmica é enfatizada já no título que amalgama Dodô – nome artístico do baiano Adolfo Antônio Nascimento (1920 – 1978), um dos artesãos do Trio Elétrico – e o alquimista Jorge Ben Jor. Eletro Ben Dodô é o título do primeiro álbum solo do baiano cosmopolita Lucas Santtana, mas a música homônima não faz parte do repertório do disco lançado em 1999.


Com bela capa que expõe pintura do artista plástico Iuri Sarmento sobre foto da sereia Daniela Mercury clicada por Célia Santos nas rochas vulcânicas da Ilha do Faial, nos Açores (Portugal), o EP Tri eletro tem energia, mas somente soa de fato eletrizante quando a cantora toma o banho de cheiro dado pela música de Dona Onete em regravação à altura do auge fonográfico da artista baiana. (Cotação: * * *)


(Crédito da imagem: capa do EP Tri eletro, de Daniela Mercury)

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