Joyce surfa no ritmo de palavras e sons em show de samba com jazz


Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) ainda não tinha finalizado a composição de Águas de março (1972) quando mostrou a Joyce Moreno o ainda inacabado samba que se tornaria antológico. Decorridos 45 anos do lançamento de Águas de março, a cantora, compositora e violonista carioca mostrou mais uma vez que justifica todos os elogios feitos a ela, muitas vezes publicamente, pelo soberano Tom. Águas de março foi um dos muitos pontos altos do show Palavra e som, apresentado por Joyce na noite de ontem, 26 de setembro de 2017, no Teatro do Sesc Ginástico, na cidade natal do Rio de Janeiro (RJ), para promover o homônimo álbum de músicas inéditas lançado no Japão em 2016 e editado no Brasil neste ano de 2017 pela gravadora Biscoito Fino.


Como o disco, o show resultou irretocável. Com o toque entrosado do trio formado por Rodoldo Stroeter (baixo), Tiago Costa (piano) e Tutty Moreno (bateria), Joyce surfou no ritmo de palavras e sons, cantando e tocando samba com a tal influência do jazz, como a artista explicitou na letra e no canto de Mingus, Miles & Coltrane (Joyce Moreno, 2016). A própria abordagem de Águas de março soou reverente na superfície, mas embutiu os toques pessoais da cantora e do trio.


Aberto com A banda maluca (Joyce Moreno, 2003) e Humaitá (Joyce Moreno, 2016), dois sambas unidos pela geografia carioca, o roteiro seguiu na sequência com o tributo ao ritmo matricial do show, No mistério do samba (Joyce Moreno, 2014), lançado por Maria Rita. O que levou Joyce a traçar sagaz paralelo entre esse samba e a canção seguinte, Essa mulher (Joyce Moreno, 1979), feita para soberana mãe de Maria Rita, uma certa Elis Regina (1945 – 1982), que batizou álbum de 1979 com o nome da música que ganhou de Joyce. Feminina canção à qual a compositora deu voz no show com a maturidade adquirida no longo caminho profissional iniciado na primeira metade da década de 1960.


Descendente da geração da Bossa Nova, Joyce apresentou no show um Desafinado (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, 1959) para João Gilberto nenhum botar defeito. Brincando com o tempo da canção, enfatizando palavras da letra, buscando novas divisões e embutindo citação de Aquarela do Brasil (Ary Barroso, 1939), Joyce mostrou que a música que gravou há 30 anos em álbum, Tom Jobim e os anos 60 (1987), continua viva na voz da artista. E isto é muito natural para uma cantora que se portou no palco como músico, interagindo harmoniosamente com os excepcionais Rodolfo Stroeter, Tiago Costa e Tutty Moreno para cair na swingueira que pautou temas como Sambando no Apocalipse(Joyce Moreno, 2016) e o eterno hit Feminina (Joyce Moreno, 1979), fecho do show que, no bis, teve abordagem jazzística (e de certa forma política, por conta da corrente convulsão social que oprime moradores honestos de favelas cariocas) do samba O morro não tem vez (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1963).


Metendo o pé na globalização, a cantora ainda ligou Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935) ao jazz quando cantou Forrobodó das meninas (Joyce Moreno, 2016) e saúda a padroeira do Brasil em Ave Maria serena (Joyce Moreno, 2016), canção que soou menos sertaneja no show, no confronto com a gravação do álbum Palavra e som, feita com o toque de viola ausente na apresentação.


Em roteiro que incluiu afro-samba que veio à tona há oito anos, Canto de Iansã (Baden Powell e Ildásio Tavares, 2009), houve espaço para set de voz & violão em que Joyce reviveu canções que a conectaram com o chamado grande público na primeira metade dos anos 1980. A naturalista Monsieur Binot (Joyce Moreno, 1981) foi seguida nesse bloco por Clareana (Joyce Moreno, 1980), hit de tardio festival da canção que o público cantou sozinho enquanto Joyce fazia ao violão o desenho melódico da música e dava deixas com trechos da letra.


O set solidificou a fina sintonia entre artista e público nesse show em que o samba e o jazz se irmanaram no toque do violão e no canto livre, leve e solto de Joyce Moreno, artista que sabe desvendar o mistério profundo do samba com a bossa que encantava ninguém menos do que Antonio Carlos Jobim. (Cotação: * * * * *)


(Créditos das imagens: Joyce Moreno no show Palavra e som, em apresentação em 27 de setembro de 2017 no teatro do Sesc Ginástico, no Rio, em fotos de Mauro Ferreira)

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