Só mais um esforço… rumo ao abismo

Capa do livro 'Só mais um esforço', de Vladimir Safatle.Chega a ser assombroso que, em um século 21 já à beira da maioridade, ainda exista quem escreva (e quem publique) um livro com as seguintes propostas:

– Substituição dos poderes Legislativo e Executivo por mecanismos de democracia direta;

– Confisco dos aparelhos de produção, que passariam a ser geridos pelos próprios trabalhadores;

– Gestão coletiva dos recursos públicos;

– Restrições ao direito de propriedade privada.

Pois é. Coisas assim são defendidas em “Só mais um esforço”, de Vladimir Safatle (Três Estrelas, 144 pgs. R$ 29,90).

Professor de Filosofia na USP, Safatle escreve no estilo característico dos acadêmicos de Ciências Humanas no Brasil: em um tom pomposo e falsamente profundo, pontuado aqui e ali por ironias e citações poéticas. Cita René Char e “Deus” nas epígrafes e dedica o livro, pretensiosamente, “aos que estão a ponto de emergir”. Percebe-se que ele escreve olhando de cima, impressão reforçada pelas fotografias do autor. Seu texto é um convite para que o leitor usufrua de sua superioridade moral e intelectual.

Mas, apesar das credenciais acadêmicas acumuladas em 44 anos de vida, a mentalidade é de um adolescente que sonha transformar o mundo abolindo a propriedade privada dos meios de produção e entregando o poder a conselhos populares. Safatle prega o conflito e debocha de qualquer política de conciliação entre as classes sociais. Faz tudo isso ignorando a História, ou dela selecionando apenas o que reforça sua narrativa pseudo-radical. Como um Nero da pós-verdade, acha que tocar fogo em Roma é a solução para os nossos problemas. É sugestivo que o título do livro homenageie o Marquês de Sade, que também escreveu que a tolerância é a virtude do fraco.

Logo na primeira página, o autor afirma que o Brasil está “completamente à deriva” depois de um “golpe parlamentar” (acho que ele está falando do processo de impeachment chancelado pela Constituição e pelas ruas, tomadas por milhões de brasileiros cansados de corrupção e incompetência). É mesmo? A inflação estava em 10% e crescendo, hoje está abaixo de 3%; o PIB encolheu 7,2% em 2015 e 2016 e volta a crescer; o desemprego, que aumentava de forma galopante, já começa a cair. E é agora que o país está à deriva?

Safatle critica o lulopetismo não por ter destruído a economia brasileira, jogando milhões de brasileiros no desemprego, trazendo de volta a inflação de dois dígitos e provocando a maior recessão de nossa História (e as vítimas preferenciais desse processo são os pobres e oprimidos que o autor acredita representar, vale lembrar). Ele critica o lulopetismo não pelos escândalos de corrupção em série a serviço de um projeto de perpetuação no poder. Ele critica o lulopetismo porque acha que tudo isso foi pouco.

Safatle não sabe, mas não é somente um agente de doutrinação da Universidade com Partido. É ele próprio uma vítima da doutrinação promovida por seus próprios professores em sala de aula, em seus anos de formação. E é este o gênio do sistema de uma Educação aparelhada e voltada para a consolidação de uma nova hegemonia, no sentido gramsciano da palavra: professores doutrinam sem saber que estão doutrinando. Bastam 20 ou 30 anos para que tudo esteja dominado.

O autor propõe uma “refundação” da esquerda. Já ouvimos isso antes: a esquerda precisa se reinventar. Concordo. Caso não queira fazer feio, uma reinvenção é urgente – mas, seguramente, não será aquela que Safatle propõe. Resumindo: “Só mais um esforço” é só mais um esforço para tentar vencer, na narrativa, uma luta perdida no Poder Legislativo, no Poder Judiciário e nas ruas.

Leia aqui um trecho do livro.

http://www.editora3estrelas.folha.uol.com.br/primeiraleitura/124886-o-ultimo-capitulo-ou-historia-sucinta-da-decomposicao-de-um-pais.shtml

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