Cidade Negra se revigora ao abordar obra de Gil, pioneiro do reggae nativo


ROCK IN RIO 2017 – Um dos pioneiros do reggae no Brasil, o cantor, compositor e músico baiano Gilberto Gil abriu caminho na década de 1970 para que a banda fluminense Cidade Negra – cujas origens remontam ao início dos anos 1980 no município de Belford Roxo (RJ), na Baixada Fluminense – pavimentasse a própria história na cadência do ritmo jamaicano, tocando reggae com apelo pop mais evidenciado a partir de 1994, ano da substituição do vocalista original, Rás Bernardo, pelo carismático cantor fluminense Toni Garrido.


Atualmente reduzida a um trio formado por Garrido com os fundadores Bino Farias (baixo) e Lazão (bateria), a banda Cidade Negra se revigora com show em que celebra a obra antenada de Gil. Apresentado no Palco Sunset na tarde de ontem, 23 de setembro, o show do Rock in Rio foi o ponto de partida para turnê que vai percorrer o Brasil.


Na apresentação do festival, Cidade Negra contou com adições da Digital Dubs – equipe carioca de Sound System que toca reggae e ritmos derivados do gênero, estando em cena desde 2001 – e do pernambucano maestro Spok, ligado ao frevo. Com forte base eletrônica, o trio rebobinou reggaes de Gil, como Extra (1983) e Não chore mais (No woman, no cry) (Vincent Ford, 1974, em versão em português de Gilberto Gil, 1979), e trouxe outras músicas do cancioneiro plural do compositor para o universo musical jamaicano.


Com a voz excessivamente grave e inaudível em Esotérico (1976), Garrido encontrou aos poucos um tom mais confortável para entreter o vasto público que se aglomerou em frente ao Palco Sunset para ver o show. Nem as intervenções vocais de Spok em Nos barracos da cidade (Gilberto Gil e Liminha, 1985), música de atualíssima indignação com os políticos do Brasil, empanou a pegada de show que ganhou ainda mais brilho com a entrada em cena da Digital Dubs para participação iniciada com o samba Andar com fé (1982) e encerrada com o paralâmico pop reggae A novidade (Gilberto Gil, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, 1986). Nesse set coletivo, a oportuna lembrança de Refavela (1977), com o sopro do Spok e os MCs do Digital Dubs, pôs reggae, dub e rap no mesmo fervente caldeirão sonoro.


Sozinho em cena, Cidade Negra alinhou Índigo blue (1984) e evidenciou a proximidade rítmica entre xote e reggae em Abri a porta (Gilberto Gil e Dominguinhos, 1979), se mantendo na ponte que liga a Jamaica ao Nordeste do Brasil quando tocou Esperando na janela (Targino Gondim, Manuca Almeida e Raimundinho do Acordeom, 2000).


No fim, Realce (1979) – em clima de disco-reggae, com arranjo decalcado da imbatível gravação original de Gil – e Palco (1981) agitaram o público e arremataram bem o show em que, escorado no repertório magistral de Gil, Cidade Negra ganha fôlego para continuar na estrada.


(Crédito da imagem: Cidade Negra, Digital Dubs e Spok no Rock in Rio 2017 em foto de Fábio Tito / G1)

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