Conectado com Sinara pela diáspora africana, Aleluia paira como entidade


ROCK IN RIO 2017 – Mestre da africanidade barroca, Mateus Aleluia pairou como entidade de aura sagrada durante todo o tempo em que permaneceu no Palco Sunset como convidado da Sinara, banda carioca cujo show no Rock in Rio abriu a programação do quinto dia do festival na tarde de ontem, 22 de setembro. Havia sol sobre a reduzida plateia que assistiu ao show, mas a luz maior vinha da figura já mítica deste baiano de 73 anos que ganhou projeção na década de 1970 como integrante do grupo Os Tincoãs.


Ao convidar Aleluia para entrar em cena, o carismático vocalista da Sinara, Luthuli Ayodele, já saudou o convidado como se estivesse diante de um Deus da música. De certa forma, Aleluia é uma voz que ecoa o canto das divindades afro-brasileiras. O encontro de Aleluia com a Sinara é fruto da diáspora africana que conecta o som dos Tincoãs com o pop negro da Sinara, banda que inclui na formação um filho (José Gil, no posto de baterista) e dois netos (João Gil e Francisco Gil, nas guitarras) de outra divindade musical baiana, Gilberto Gil, além do baixista Magno Brito.


Quando a Sinara cantou um reggae como Marchando, de versos reflexivos como “Eu quero ver / Quando o tempo fechar / A corrente bater / E o medo apertar / O que é que você vai fazer?”, é como se a voz de Aleluia já ecoasse nas indagações que expõem o apartheid social e racial ainda em voga no Brasil e no mundo. O fato de o cantor e principal compositor da Sinara ter sido nascido e criado na favela da Rocinha, como enfatizou o próprio Luthuli Ayodele, tornou tudo mais significativo e político em show feito em dia em que a cidade do Rio de Janeiro (RJ) acordou acuada pelo medo e pelo barulho dos tiros disparados na comunidade.


Musicalmente, tudo pareceu se encaixar quando Aleluia e Sinara se uniram para apresentar Fim dos tempos, música do recém-lançado primeiro álbum da banda, Menos é mais (2017), que embute o toque do ijexá. Na sequência, o convidado puxou o Cordeiro de Nanã (Mateus Aleluia e Dadinho, 1977), pedra fundamental do cancioneiro dos Tincoãs, lançada há 40 anos. Música que deu nome ao também recente segundo álbum solo de Aleluia, lançado em fevereiro deste ano de 2017, Fogueira doce (Mateus Aleluia) foi apresentada de início somente com o violão e a voz ancestral do cantor baiano. Aos poucos, a Sinara pôs toques sutis no arranjo econômico.


Deixa a gira girar (Mateus Aleluia, Dadinho e Eraldo, 1973), outro sucesso dos Tincoãs, encerrou a participação realmente especial de Mateus Aleluia no show da Sinara, que arrematou a apresentação com Floresta, reggae em clima de luau lançado pela banda em 2015, e com As coisas vão mudar, tema de pegada funky. Ecos distantes, mas ao mesmo tempo aproximados pela diáspora africana, do canto afro-baiano de Mateus Aleluia, entidade de aura sagrada que valorizou o som e o show da Sinara na estreia da banda no Rock in Rio.


(Crédito da imagem: Mateus Aleluia e Sinara no Rock in Rio 2017 em foto de Fábio Tito / G1)

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