Indomável, Angela Ro Ro canta danos e verdades no autoral CD ‘Selvagem’


Pela própria natureza indomada, Angela Ro Ro conseguiu sobreviver na indústria da música sem macular obra autoral que teve pico de criatividade entre 1979 – ano do antológico primeiro álbum dessa cantora e compositora carioca herdeira da sofrência de antecessoras como Maysa (1936 – 1977) – e 1984. Selvagem, disco inteiramente autoral de músicas inéditas lançado por Ro Ro neste mês de setembro de 2017 em edição da gravadora Biscoito Fino, acrescenta mais 11 títulos a esse cancioneiro que arde na fogueira das paixões, embebido em doses equilibradas de amor e dor.


“Essa paixão a queimar / Meu combustível é amar…”, reitera a estilista das dores de amores em Meu retiro, faixa que esboça atmosfera bluesy. Neste 14º álbum da discografia da artista, há lampejos da luminosidade da compositora na balada É simples assim…, em O que me resta – canção de romantismo doído – e sobretudo em Nenhuma nuvem, linda balada conduzida pelo toque sintetizado de um piano wurlitzer.


Música à altura das criações mais sensíveis da artista, Nenhuma nuvem é o título mais inspirado da atual safra autoral da compositora, quase toda criada solitariamente por Ro Ro, na contramão do espírito gregário do trabalho anterior da artista, Feliz da vida! (2013), projeto ao vivo marcado pela abertura de parcerias. Em Selvagem, o único parceiro é o tecladista Ricardo Mac Cord, coautor de Sai de mim (faixa de fluida ambiência dançante), da música-título Selvagem e das já mencionadas O que me resta e Meu retiro.


A questão primordial do álbum Selvagem é a embalagem econômica com a qual as canções são apresentadas no disco. Possivelmente por questões orçamentárias, as 11 músicas foram inteiramente gravadas com arranjos e com o toque dos teclados e das programações de Ricardo Mac Cord, músico que se tornou o fiel escudeiro da cantora em shows desde a década de 1990. O sons dos violões, guitarras, sopros e metais ouvidos ao longo de Selvagem são todos sintetizados, sem brilho, o que empobrece a formatação instrumental de músicas como o sambossa De todas as cores, o boogie roqueiro Caminho do bem, o samba Maria da Penha – no qual a compositora emula com habilidade a cadência do samba do morro dos pioneiros bambas para abordar sem drama o tema da violência doméstica contra a mulher – e o xaxado Parte com o capeta.


Curiosidade do repertório, a balada Portal do amor nasceu em Londres, Inglaterra, em 1973, tendo sido completada no Brasil neste ano de 2017. A letra bilíngue tem versos em inglês. Enfim, as canções de Ro Ro pedem tratamento mais sofisticado do que o recebido no álbum Selvagem. Mas paira, ao longo das 11 músicas, a sensibilidade dessa artista livre, com coragem de sobra para traçar a própria viagem, cantando verdades, vaidades, danos e enganos, como ela própria reitera nos versos da música-título Selvagem, cuja letra funciona como mais uma carta de princípios da indomável Angela Ro Ro. (Cotação: * * *)


(Crédito da imagem: Capa do álbum Selvagem. Angela Ro Ro em foto de Alexandre Moreira)

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