Disco ‘Serpente’ dá o bote na imagem de sambista criada para Aline Calixto


Grandes discos já nasceram de um coração partido. Um dos maiores e mais famosos é Back to black (2006), consagrador segundo álbum da cantora inglesa Amy Winehouse (1983 – 2011). A mineira Aline Calixto tenta dar o bote em desafeto com o quarto álbum, Serpente (Lab 344), disco que remexe na identidade e no som da artista. Aliás, o verdadeiro bote é o dado na imagem tradicional de sambista à qual Calixto era associada até então.


Na contramão de discos anteriores como Flor morena (2011) e Meu ziriguidum (2015), álbuns típicos de uma sambista que se apresentava basicamente como intérprete das dores e músicas alheias, a cantora agora se assume compositora, assinando com diversos parceiros as dez músicas do repertório inteiramente inédito e autoral de Serpente, e sai do terreirão do samba sem se afastar do samba em si.


O samba está lá, em composições de qualidade oscilante como a inspirada O tiro (Aline Calixto e Thiago Pascoa) – tema de versos perfurantes disparado em 14 de julho nas plataformas digitais como primeiro single de Serpente – e a opaca Brilho perdido (Aline Calixto e Mauro Rodrigues). Mas a sonoridade leve, crua, minimalista, leva Calixto para outras rodas sob a fluida direção musical de Domenico Lancellotti.


Serpente é álbum de sonoridade leve. O toque da harpa de Cristina Barga é recorrente nos arranjos calcados no mix dessa harpa de aura celestial – adorno perfeito para a chanson em francês C’est avec vous (Aline Calixto e Benjamin Lelaidier) – com a guitarra cheia de suingue tocada por Pedro Sá e as suaves percussões e baterias eletrônicas manuseadas por Domenico. Essa atmosfera vaporosa se ajusta ao belo samba lento Sentimento errado (Aline Calixto e Moacyr Luz) e à delicadeza de É o amor (Aline Calixto e Dea Trancoso), canção que cruza o disco ao fim como facho de luz e crença no afeto.


Contudo, essa mesma leveza parece fora de sintonia em Revival (Aline Calixto e Gabriel Moura). A música evoca o clima ensolarado das canções de Marcos Valle na inicial fase Bossa Nova da obra do compositor carioca. Mas a letra é cinzenta. Porque Serpente é essencial e conceitualmente um disco nublado por desilusões amorosas. As incisivas letras de músicas como Colapso (Aline Calixto e Juliano Boteco) e O oposto (Aline Calixto e Marcos Frederico) dialogam entre si – e esse é um dos méritos do álbum batizado com o nome de parceria de Calixto com Edu Krieger.


A questão é que nem sempre música e letra estão afinadas, impedindo o bote certeiro. Outra questão é que Serpente deixa certo estranhamento por onde passa pelo fato de dissolver a identidade anterior da artista. Sai de cena a sambista que há nove anos a gravadora Warner Music tentou desesperadamente transformar numa estrela dos quintais brasileiros com o lançamento do superestimado álbum Aline Calixto (2009), primeiro passo fonográfico desta (boa) cantora que compõe desde 2002, como a própria artista informa no breve texto de agradecimento publicado na edição em CD de Serpente.


O atual disco rompe com essa imagem de cantora de samba mantida por Calixto até o já mencionado álbum anterior Meu ziriguidum, lançado há dois anos por vias independentes. Aline Calixto também canta samba em Serpente. Mas o ziriguidum é outro pelo tratamento leve da dor, feito sob a direção zen de Domenico Lancellottti. (Cotação: * * *)


(Crédito da imagem: capa do álbum Serpente. Aline Calixto em foto de Philippe Leon)

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