Sergio Mendes faz vibrante passeio musical no Rio pelo ‘Brazil’ de 1966


Aos 76 anos, 53 deles vividos em Los Angeles (EUA), o pianista e compositor fluminense Sergio Mendes estava há 39 anos sem se apresentar no Rio de Janeiro (RJ), cidade vizinha da Niterói natal. Por isso mesmo, o público que assistiu a uma das quatro sessões do vibrante show feito pelo artista no recém-inaugurado Blue Note Rio no último fim de semana, 9 e 10 de setembro, certamente se surpreendeu positivamente com a musicalidade viva e ainda exuberante de Mendes.


De 1978 (ano da última apresentação carioca do artista) a 2017, Mendes emplacou sucesso mundial em 1983 – a balada Never gonna let you go (Barry Mann e Cynthia Well), um dos pontos altos do show na sessão das 20h de ontem, por conta da bossa inserida no refrão e sobretudo por conta da voz em forma de Joe Pizzulo, solista da gravação original do álbum Sergio Mendes (1983) – e, em 2006, se uniu ao rapper will.i.am para reprocessar músicas que gravara há 40 anos com o conjunto Brazil’66 no álbum (de 1966, claro) que deu projeção mundial a Mendes.


Não por acaso, a música de maior relevância desse disco, Mas que nada (Jorge Ben Jor, 1963), encerrou o show na versão repaginada com will.i.am, cabendo a H20 fazer a parte em rap que era do artista do grupo Black Eyed Peas no hit de Jorge Ben e em músicas como Água de beber (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961), número inspirado na gravação do afro-samba no álbum Encanto (2008), o segundo feito com will.i.am.


Ao saudar o público do Blue Note Rio no início do show, Mendes caracterizou o roteiro como um “passeio musical” por obra iniciada há muitos anos atrás quando o artista pegava a barca, em Niterói, para desembarcar no Rio e rumar para o Bottle’s bar, uma das boates cariocas em que já germinava o samba-jazz da década de 1960.


A rigor, essa obra foi pautada pelo suingue da música brasileira derivada da Bossa Nova. Mendes soube cair nesse suingue com levadas que traduziram o samba e o balanço do Brasil para o idioma dos gringos. Foi esse suingue – perceptível tanto no toque do piano de Mendes como na performance dos músicos da banda que integra instrumentistas norte-americanos, mas que é dominada por brasileiros como o baixista André de Santana, o percussionista Gibi, o guitarrista Kleber Jorge e o baterista Léo Costa – que fez com o que “passeio musical” de Mendes soasse quase sempre agradável.


Músicas como Upa neguinho (Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, 1965) e Roda (Gilberto Gil e João Augusto, 1965), sucessos da então nascente MPB surgida na era dos festivais, foram tocadas em arranjos vibrantes. Um dos primeiro afro-sambas, Berimbau (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1963) também ressurgiu de forma luminosa no show.


Vocalista e musa de Mendes desde os anos 1960, Gracinha Leporace segue no tom do artista, tendo brilhado no show ao interpretar músicas como O cantador (Dori Caymmi e Nelson Motta, 1966). Quando arrisca registros vocais mais intensos, como em O que será (Chico Buarque, 1976), o brilho é um pouco menor, mas nada que tire o mérito da boa cantora.


Valorizada pela excelente acústica do Blue Note Rio, a total interação entre Mendes, os músicos e as vocalistas fez com que números como Sou eu (Moacir Santos e Nei Lopes, 2001) – pretexto para saudação ao maestro pernambucano Moacir Santos (1926 – 2006), com quem Mendes teve aula na adolescência – criassem atmosfera de encantamento no palco da mais nova casa de shows do Rio.


Mesmo números de menor apelo rítmico, caso de Goin’ out of my head (Teddy Randazzo e Bobby Weinstein, 1964), mantiveram o show nos trilhos sonoros de Mendes, compositor de So many stars (Sérgio Mendes, Alan Bergman, Marilyn Bergman, 1968), música lançada pelo autor em outro bem-sucedido álbum com o Brazil ’66, Look around (1968), e revivida no show com orgulhosas alusões ao fato de a balada ter sido gravada por cantores norte-americanos como Barbra Streisand e Tony Bennett.


Enfim, Sergio Mendes superou expectativas ao retornar aos palcos cariocas no Brasil de 2017. O passeio musical mostrou a bossa de um artista que soube se apropriar do suingue da música brasileira da década de 1960. Em que pesem as conexões com will.i.am e o universo do hip hop, feitas a partir do revigorante álbum Timeless (2006), o Brasil de Sergio Mendes ainda é essencialmente o de 1966. (Cotação: * * * *)


(Créditos das imagens: Sergio Mendes no palco do Blue Note Rio em fotos de Mauro Ferreira)

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