“Os homens explicam tudo para mim” reforça estereótipos do feminismo

“Os homens explicam tudo para mim” reforça estereótipos do feminismoComecei a ler “Os homens explicam tudo para mim”, de Rebecca Solnit, atraído pelo título e pela capa, um e outro sugerindo um tratamento leve e bem-humorado de questões ligadas ao feminismo. De fato, a autora – jornalista, historiadora e ativista – escreve de forma fluente e irônica, o que confere aos sete ensaios reunidos no volume um tom de conversa informal. Parece que o texto que dá título ao livro se tornou referência no debate sobre direitos das mulheres nos Estados Unidos.

O ensaio principal começa com o relato de um episódio banal vivido pela autora em uma festa: lá pelas tantas, um homem mais velho e bem-sucedido a chamou para conversar e passou um bom tempo falando, de forma professoral, sobre um livro a respeito de Eadweard Muybridge (“River of shadows”), sem se dar conta de que ela era a autora. O episódio, ora descrito como cômico, ora como desagradável, é o pretexto para Rebecca Solnit discorrer sobre a opressão das mulheres, historicamente silenciadas por machos opressores, sem direito a um lugar de fala, vítimas de violência doméstica, cerceadas em seu próprio direito à existência etc.

Ainda que tenha elogiado o livro, classificando-o como “importantíssimo”, o macho opressor em questão cometera o crime do “mansplaining” – algo como “homensplicação” palavra que lembra a novilíngua de “1984”, de George Orwell. Vejam vocês: a autora explora um estereótipo já um pouco fora de moda, segundo o qual todos os homens tratam as mulheres com condescendência, para desfiar o rosário habitual de reclamações vitimistas.

Ora, por que o episódio da festa estaria necessariamente ligado a uma questão de gênero? Eu mesmo já passei pela situação em que uma leitora me falou de forma condescendente sobre um livro sem saber que eu era o autor. E daí? Achei graça. Mas, quando se quer demonstrar uma tese, é sempre possível encaixar a realidade em uma grade de significados predeterminada, em uma narrativa: no caso, a narrativa feminista, que vive do conflito entre homens e mulheres.

Além de aparentemente querer cassar a palavra de qualquer integrante do sexo oposto (reforçando o clichê de que o sonho do oprimido é tomar o lugar do opressor), a autora atribui aos homens a “confiança total e absoluta dos totalmente ignorantes”, como se não houvesse mulheres arrogantes e ignorantes no mundo.

“Quando um homem diz para uma mulher, categoricamente, que ele sabe do que está falando e ela não, mesmo que isso seja uma parte mínima de uma conversa, perpetua a feiura deste mundo e tira dele a sua luz”, escreve Rebecca. É mesmo? E quando é uma mulher que diz isso a um homem? Em outro momento ela acusa os “homens que explicam tudo” de presumir que ela é “um recipiente vazio pronto para ser preenchido”. Fiquei em dúvida sobre o caráter freudiano da metáfora.

Rebecca escreve como se vivêssemos em um mundo no qual as mulheres não têm o direito de falar, de ter ideias, de terem valor, de terem credibilidade, de serem reconhecidas como seres humanos. Lá pelas tantas, ela usa inadvertidamente a expressão “a velha e chata guerra dos sexos”, o que também é sugestivo. Talvez as militantes feministas, como ela, sejam as principais interessadas na continuidade dessa guerra, que é realmente velha e chata, porque dependem dela para justificar seu discurso sectário e rabugento.

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