Célia, cantora que fez no tempo soar a própria sílaba, festeja hoje 70 anos


Há muitas grandes cantoras neste país de cantoras. Célia é uma delas. Pena que grande parte do Brasil não saiba o tamanho da expressividade dessa artista nascida na cidade de São Paulo (SP) em 8 de setembro de 1947. Sim, Célia chega hoje aos 70 anos de vida com a voz grave que o país ouviu pela primeira vez em 1970, ano em que a cantora foi revelada no programa de TV Um instante, maestro!, comandado pelo controvertido apresentador Flávio Cavalcanti (1923 – 1986).


No embalo da projeção nacional pela TV, Célia iniciou promissora carreira fonográfica na primeira metade dos anos 1970, década em que lançou quatro álbuns pela extinta gravadora Continental, todos batizados com o nome da cantora. Os três primeiros, de 1971, 1972 e 1975, são especialmente relevantes. O primeiro trouxe regravação de Adeus, batucada (Synval Silva, 1935) que mostrou que Célia sabia pisar com firmeza no terreirão do samba. Habilidade confirmada em 1975 quando a cantora deu voz a outro samba antigo que seria, a partir de então, associado à voz de Célia: Onde estão os tamborins? (Pedro Caetano, 1946).

Assim como a voz de Célia, os tamborins ficaram mais escondidos nos anos 1980 e 1990, década refratária a cantoras associadas a uma MPB que já começava a ficar à margem do mercado. Célia, atualmente mais conhecida em São Paulo do que no resto do Brasil, gravou discos eventuais, mas amargou injusto ostracismo até retomar a carreira fonográfica com regularidade, na última década, sob a batuta do produtor Thiago Marques Luiz.


A partir do álbum Faço no tempo soar minha sílaba (2007), gravado em duo com o violonista Dino Barioni e lançado há dez anos, a discografia de Célia entrou novamente no tom. Nesse segundo tempo da carreira, Célia apresentou ao menos três gravações antológicas que confirmaram a grandeza do canto da intérprete.


Em 2010, acertou com precisão o tom de Vidas inteiras – uma bela e quase desconhecida de Adriana Calcanhotto, composta para a trilha sonora do filme Polaroides urbanas (Brasil, 2008) – em gravação feita para o álbum O lado oculto das canções (2010).


Em 2011, teve outro instante grandioso ao sobressair no elenco do tributo A voz da mulher na obra de Taiguara por jogar luz sobre Mudou (1972), outra bela e desconhecida canção, esta da lavra guerrilheira do compositor uruguaio-brasileiro Taiguara Chalar da Silva (1945 – 1996). Célia deu aula de interpretação ao dar voz a Mudou.


Em 2015, no (por ora) último álbum da carreira, Aquilo que a gente diz, a cantora pescou pérola rara do do compositor capixaba Sérgio Sampaio (1947 – 1974), Eu sou aquele que disse (1973), traduzindo na voz a ansiedade, a angústia e a inquietação dessa música que fervilhou no caldeirão existencial de Sampaio.


Enfim, Célia geralmente sabe o que diz quando canta. Por isso mesmo, é preciso que tenha um registro audiovisual na carreira fonográfica que já contabiliza 46 anos. Que bem poderia ser o (ainda inédito) DVD gravado em 21 de abril de 2016 em show sem plateia no Teatro Itália, na cidade, São Paulo (SP), que pariu essa grande cantora do Brasil que hoje celebra 70 anos, já tendo feito no tempo soar a própria sílaba.


(Crédito da imagem: Célia em foto de divulgação de Jair de Assis)

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