Biografia sem fôlego investigativo jamais decifra o enigma de Belchior


Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017) talvez já estivesse muito cansado com o peso da própria cabeça quando a veia aorta do artista se rompeu e o tirou de cena na cidade gaúcha de Santa Cruz do Sul (RS), há quatro meses, sem que ninguém tivesse decifrado o enigma deste cantor, compositor e músico cearense. Lançada neste mês de agosto de 2017 pela editora Todavia, a biografia do jornalista paraibano Jotabê Medeiros em nada contribui para elucidar o mistério erguido em torno de Belchior ao longo dos 70 anos de vida do artista.


Com narrativa de pouco fôlego investigativo, mas escrita com estilo, o livro Belchior – Apenas um rapaz latino-americano mais parece uma grande reportagem sobre o artista – um perfil alentado deste cantor e compositor de obra referencial na década de 1970 – do que uma biografia que ilumine recantos escuros da alma do biografado, como faz Ruy Castro, por exemplo, ao reconstituir minuciosamente as vidas das personalidades que investiga. Tanto que, lá pelo meio do livro, o tom analítico domina a narrativa com descrições, referências e interpretações (geralmente consistentes) do cancioneiro gravado pelo cantor em discografia oficial que abrange período que vai de 1971 a 1999.


A discografia alocada ao fim do livro, aliás, exemplifica o tom raso da biografia. Ao relacionar os álbuns, o autor se limita a expor os títulos e os anos em que foram lançados, sem listar músicas e compositores e com omissões no que diz respeito aos formatos. Não consta nessa discografia a edição em CD do álbum Elogio da loucura (1988), por exemplo, embora ela exista, como Medeiros reconhece na página 135, errando o ano (a edição em CD não saiu em 2006, como crava a biografia, mas dez anos depois, na caixa Três tons de Belchior, lançada em 2016 para celebrar os 70 anos de vida do artista). Compactos são omitidos nessa discografia. E, na parte dedicada às coletâneas, o autor mistura compilações propriamente ditas com títulos de séries que reeditaram dois álbuns em um único CD.


Tudo isso seria desculpável se, ao longo das 240 páginas do livro, houvesse uma narrativa minuciosa sobre a vida de Belchior. Só que esse texto avança pouco em relação ao que já era sabido sobre o artista e sobre o cidadão que, em 1964, iniciou estudos num convento erguido em Guaramiranga, no Ceará, para abrigar noviços capuchinhos. Tanto os relatos da vida monástica de frei Sobral no mosteiro como a narrativa sobre a infância do menino Antonio Carlos Belchior são superficiais.


Sintomaticamente, embora tenha feito várias entrevistas na fase em que pesquisava a vida de Belchior, Medeiros recorre diversas vezes ao longo do livro a trechos de reportagens em que o próprio Belchior rememorou passagens da vida pré-fama. Ao menos, o autor teve o cuidado de selecionar bem os depoimentos, ressaltando que as declarações de Belchior à imprensa não raro continham fatos inventados, produtos da mente fantasiosa do artista.


A parte em que a biografia discorre sobre a iniciação musical de Belchior em Fortaleza (CE), ao lado de cantores e compositores que seriam genericamente rotulados pela mídia como Pessoal do Ceará, é a mais interessante do livro, ainda que sempre falte a minúcia, o rigor numa investigação que permitisse uma exposição maior de detalhes que ajudariam a moldar a personalidade complexa do artista.


A ausência de aprofundamento na vida do biografado fica mais evidenciada quando a narrativa atinge o período em que Belchior sumiu progressivamente do mapa até virar um foragido – fase que durou uma década delimitada entre 2007 e este ano de 2017. Medeiros novamente pouco avança ao que já foi mostrado em reportagens de jornais e TV. Mas aí, justiça seja feita, a recusa de Edna Assunção de Araújo – a controvertida companheira de Belchior nessa jornada nômade de autoexílio – em dar entrevista ao autor impede a biografia de ir além.


No todo, Belchior – Apenas um rapaz latino-americano tem o maior mérito na análise dos álbuns do período áureo da carreira fonográfica do compositor de A palo seco (1973). A imagem que se tem de Belchior é a do artista de obra imaculada, mas Jotabê Medeiros mostra como o compositor árido de canções geracionais também aceitou seguir as regras e as fórmulas da indústria da música na segunda metade da década de 1970, quando, já famoso, se tornou mais pop, gravou até disco music (em latim!) e enfatizou imagem sensual para criar a persona artística do latin lover em jogo de sedução que esse amante latino-americano já praticava fora de cena.


Ainda assim, o livro fica devendo muito a quem esperava um mergulho mais profundo na existência singular de Antonio Carlos Belchior. Que venha, portanto, uma outra biografia desse rapaz latino-americano! (Cotação: * * 1/2)


(Crédito da imagem: capa do livro Belchior – Apenas um rapaz latino-americano. Belchior em 27 de outubro de 1983 no Rio de Janeiro, em foto de Silvio Corrêa, da Agência O Globo)

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